ritarismo, fazer da educação e da cultura uma extensão passiva
das palavras bíblicas, num criacionismo extemporâneo e avesso
ao mundo moderno e às próprias tradições nacionais. Quer fechar
o país à influência de um “globalismo” não compreendido, visto
como ambiente para a reprodução das esquerdas e a desnaciona-
lização do país. Quer criar um povo submisso, que se movimente
pouco, que não ouse nem atravesse os rubicões da vida, que não
se dê ao direito de usufruir das margens de liberdade ampliadas
pela modernidade, não conteste hierarquias e autoridades, espe-
cialmente as emanadas dos super-heróis da nova era.
Não é acidental que a bajulação tenha se convertido em estilo
de atuação. Há “libertadores” que precisam ser incensados, Trump
acima de todos, líderes que conduzirão a humanidade de volta ao
leito da nação e varrerão os “subversivos”, os ímpios, da face da
Terra. A primeira viagem presidencial a Washington mostrou quão
longe pode chegar tamanha disposição à subserviência.
Não sabemos a força que essa operação terá diante dos modos
de agir, pensar e sentir impulsionados pelas dinâmicas da moder-
nidade radicalizada, que reiteram o indivíduo cioso de sua privaci-
dade e de sua responsabilidade cívica, que põem em marcha uma
individualização que tensiona os nexos entre as pessoas e os gru-
pos, que explodem as velhas modalidades de ordem e disciplina. A
mesma modernidade que tensiona a democracia e produz intenso
desejo de identidade também multiplica direitos de todo tipo e abre
clareiras democráticas, desafiando os poderes constituídos, os
hábitos políticos estruturados, as figuras tradicionais do associati-
vismo (partidos, sindicatos), projetando as populações num vórtice
incessante e fora de controle. Vivemos um tempo de complexidades
categóricas, hostis às formas simples de pensamento e ação.
É um equívoco pensar que a pretendida regressão nos costumes
será vitoriosa. Sua maior dificuldade é precisamente aquilo que lhe
dá força inicial: sua grosseria, seu linguajar chulo, sua ruptura
com a ciência e a democracia, seu desprezo pelas liberdades, sua
mediocridade técnica. São esses elementos que fazem com que a
pregação fanatizada obtenha audiência e mobilize uma legião de
seguidores. Mas como será quando ela tiver de entregar o que pro-
mete e que colide com os termos da vida atual, entra em choque
com eles e é por eles deslegitimada? Como será quando seus articu-
ladores políticos e governamentais tiverem de explicar à população
o mau governo que praticam, com sua crueldade e suas mãos sujas
de imposturas intelectuais e baixarias vis?
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Marco Aurélio Nogueira