Pedras e Demônios pd53 | Page 204

humana. Mesmo com tudo o que aconteceu com ele e sua mulher, não deixou que o seu coração fosse povoado pelo ódio. Todos pode- mos olhar para ele com orgulho do seu passado de lutas em prol do social, como defensor inflexível da cidadania e das liberdades ame- açadas. De Wellington Mangueira pode-se dizer que combateu o bom combate, dando tudo de si por um humanismo de base demo- crática, que tem como norte uma sociedade livre, justa e solidária, lapidada pela consciência. Compreendeu cedo o seu papel de não conformista, de agente de transformação social dentro daquilo que o destino construiu para ele. Alguns acontecimentos ligaram a minha vida à de Wellington: o primeiro quando fui convocado pelo reitor da Universidade Federal de Sergipe e pelo arcebispo Dom Luciano Duarte para um ato de “beija-mão” ao presidente Garrastazu Médici, que visitava Sergipe. Essa história eu já contei em artigo publicado na revista CUM- BUCA, décima edição. Faço um resumo: diante da minha recusa em comparecer ao ato com o ditador, fui premido por argumen- tos que me deixaram entre a cruz e a espada. Ao tempo em que a minha ida ao encontro seria bastante desconfortável, já que com- batia a ditadura, por outro lado não podia deixar de me solidarizar com a aflição do reitor e do próprio arcebispo. Pela parte do reitor João Cardoso, em razão da série de pressões que ele sofreu e estava sofrendo para punir estudantes. Em relação a Dom Luciano, uma ponderação fulminante fez com que eu revisse a minha posição: Tá bom! Quando o senhor precisou de mim para salvar o seu amigui- nho Wellington Mangueira eu prestei. Agora o senhor me dá as cos- tas! Ele lembrava uma reunião que tivemos na Cúria Metropolitana no período que Mangueira estava preso. Temíamos pela vida dele e de sua mulher, Laurinha, por conta das notícias que recebíamos sobre as torturas que vinham sofrendo em um quartel do exército fora de Sergipe. Lembro-me, também, quando fui indicado pelo Partidão para recolher junto a algumas pessoas ligadas à Universidade Fede- ral de Sergipe – professores, alunos e servidores – determinadas quantias que seriam destinadas ao pagamento dos seus advoga- dos. Na época, ele se encontrava preso com sua mulher. Outro fato significativo foi recente, ele como diretor da Fundação Renascer e eu como presidente do Tribunal de Contas. Diante da penúria das finanças do Estado, ele me fez uma série de solicitações de mobiliário, equipamentos de informática e materiais de construção usados, além de um scanner corporal que tinha como meta evitar o constrangimento das revistas íntimas aos visitantes dos menores 202 Clóvis Barbosa de Melo