amarrados e a dobra do joelho, ficando o corpo pendurado; o cho-
que elétrico, no qual dois fios longos eram ligados nas partes sexu-
ais, nos dentes, língua e ouvidos; o afogamento, que consistia em
mergulhar a cabeça do torturado num balde cheio de água ou de
fezes, empurrando sua nuca até o limite do afogamento; a cadeira
do dragão, parecida com a cadeira elétrica, mas revestida de zinco
e ligada a fios elétricos que, quando ligados, transmitia choques
por todo o corpo do acusado; a palmatória, utilizada para agredir
várias partes do corpo, inclusive nos órgãos genitais; e as agressões
físicas, aplicadas no corpo do preso.
Mas Mangueira, apesar de todo sofrimento e humilhações, como
ser transcendental, sabia que era preciso resistir e transformar-se.
Era preciso reconstruir novos sentidos e horizontes para a conti-
nuidade da vida. O livro, então, passa a narrar a sua reintegração
à vida aracajuana. Primeiro no Cotinguiba, um clube de futebol,
onde ele passou a dar exemplo de administração. Em seguida, ocu-
pando vários cargos públicos e privados como professor e advo-
gado. Depois, passou a secretário de estado da Justiça, da Segu-
rança Pública, da Cultura, secretário municipal da Educação em
Nossa Senhora do Socorro, de Obras, Assuntos Jurídicos e Cultura
e, finalmente, a Fundação Renascer, órgão que administra as uni-
dades socioeducativas Centro de Atendimento ao Menor (Cenam),
a de Internação Provisória (Usip), a Unidade Feminina (Unifem) e a
Casa São Francisco de Assis (CASE/Semiliberdade). Em cada pas-
sagem por esses órgãos, Mangueira deixou registrada a sua atua-
ção como gestor eficiente, denodado, ético e, sobretudo, revolucio-
nário, procurando sempre transformar a realidade encontrada. Na
Segurança Pública, aproximou a polícia da população através da
criação da Polícia Comunitária e de uma delegacia destinada a gru-
pos vulneráveis. O lado humanista sempre andou de mãos dadas
com a sua prática no exercício dos cargos.
Enganaram-se, entretanto, aqueles que achavam que Man-
gueira havia perdido o elo com os seus ideais e com o sonho de um
mundo melhor para todos. Mesmo ocupado com os vários afaze-
res profissionais, trabalhou no processo de legalização do Partido
Comunista Brasileiro logo após a redemocratização do país, sem-
pre participando da vida política sergipana. Foi um grande defen-
sor dos direitos humanos e soube muito bem trilhar o caminho
do reencontro com a vida. Apesar da perseguição nos albores da
ditadura militar, não vendeu sua alma, não tergiversou nos seus
princípios. Aliás, é um homem intransigente em relação aos seus
ideais, esconde no peito uma mina riquíssima de compreensão
Wellington Mangueira: O bravo cavaleiro lendário
201