Pedras e Demônios pd53 | Page 203

amarrados e a dobra do joelho, ficando o corpo pendurado; o cho- que elétrico, no qual dois fios longos eram ligados nas partes sexu- ais, nos dentes, língua e ouvidos; o afogamento, que consistia em mergulhar a cabeça do torturado num balde cheio de água ou de fezes, empurrando sua nuca até o limite do afogamento; a cadeira do dragão, parecida com a cadeira elétrica, mas revestida de zinco e ligada a fios elétricos que, quando ligados, transmitia choques por todo o corpo do acusado; a palmatória, utilizada para agredir várias partes do corpo, inclusive nos órgãos genitais; e as agressões físicas, aplicadas no corpo do preso. Mas Mangueira, apesar de todo sofrimento e humilhações, como ser transcendental, sabia que era preciso resistir e transformar-se. Era preciso reconstruir novos sentidos e horizontes para a conti- nuidade da vida. O livro, então, passa a narrar a sua reintegração à vida aracajuana. Primeiro no Cotinguiba, um clube de futebol, onde ele passou a dar exemplo de administração. Em seguida, ocu- pando vários cargos públicos e privados como professor e advo- gado. Depois, passou a secretário de estado da Justiça, da Segu- rança Pública, da Cultura, secretário municipal da Educação em Nossa Senhora do Socorro, de Obras, Assuntos Jurídicos e Cultura e, finalmente, a Fundação Renascer, órgão que administra as uni- dades socioeducativas Centro de Atendimento ao Menor (Cenam), a de Internação Provisória (Usip), a Unidade Feminina (Unifem) e a Casa São Francisco de Assis (CASE/Semiliberdade). Em cada pas- sagem por esses órgãos, Mangueira deixou registrada a sua atua- ção como gestor eficiente, denodado, ético e, sobretudo, revolucio- nário, procurando sempre transformar a realidade encontrada. Na Segurança Pública, aproximou a polícia da população através da criação da Polícia Comunitária e de uma delegacia destinada a gru- pos vulneráveis. O lado humanista sempre andou de mãos dadas com a sua prática no exercício dos cargos. Enganaram-se, entretanto, aqueles que achavam que Man- gueira havia perdido o elo com os seus ideais e com o sonho de um mundo melhor para todos. Mesmo ocupado com os vários afaze- res profissionais, trabalhou no processo de legalização do Partido Comunista Brasileiro logo após a redemocratização do país, sem- pre participando da vida política sergipana. Foi um grande defen- sor dos direitos humanos e soube muito bem trilhar o caminho do reencontro com a vida. Apesar da perseguição nos albores da ditadura militar, não vendeu sua alma, não tergiversou nos seus princípios. Aliás, é um homem intransigente em relação aos seus ideais, esconde no peito uma mina riquíssima de compreensão Wellington Mangueira: O bravo cavaleiro lendário 201