Pedras e Demônios pd53 | Page 202

Wellington Mangueira: O bravo cavaleiro lendário Clóvis Barbosa de Melo M erece todos os encômios o fato de um jovem jornalista, Mil- ton Alves Júnior, interessar-se em escrever sobre um per- sonagem intrigante da vida sergipana, ainda vivo, Welling- ton Dantas Mangueira Marques. Esta sua obra, Continência a um Comunista, traça um vasto panorama da vida desse líder estudan- til na juventude, militante histórico do Partido Comunista Brasi- leiro, preso político e torturado nos porões da ditadura militar que assombrou o país de 1964 a 1985. As sequelas psicológicas e traumatizantes produzidas pela tor- tura sofrida em si e em sua mulher, Laurinha, não foram capazes de destruir as suas vidas, mas serviram de bálsamo para justificar a necessidade de resistir. Aos poucos, mesmo diante de uma socie- dade amorfa, incapaz de entender a dor do torturado, soube com- preender esse abismo e, para tanto, partiu para recompor a sua existência como professor, desportista, advogado e gestor público. A sua infância, a família, o amor de sua vida – companheira Laurinha – os estudos no velho Atheneu, os acontecimentos políti- cos que antecederam o golpe militar de 1964, a queda do governo Jango, as prisões e as torturas sofridas, o exílio na antiga União Soviética e a prisão quando buscava novo asilo no Chile de Allende, tudo isso é contado para nos revelar a figura de um homem fra- terno, que sonhava com um mundo mais justo e igualitário. Todos sabem que durante o período ditatorial as maiores atroci- dades foram cometidas contra os que se opunham ao regime. Estu- dantes, intelectuais, políticos, sindicalistas, profissionais liberais engajados, eram perseguidos e tidos como comunistas e terroris- tas. Era preciso combatê-los. Muitos foram torturados, desapare- cidos e mortos sem qualquer tipo de constrangimento dos donos do poder. Muitas famílias não tiveram sequer o direito de dar um enterro digno a seus parentes, uma vez que os corpos nunca foram achados. Inúmeros presos políticos não resistiram e acabaram mortos após sessões de tortura física ou psicológica, com utilização dos métodos mais diversos, dentre os quais se destacam o pau- de-arara, onde uma barra de ferro era atravessada entre os punhos 200 Clóvis Barbosa de Melo