Pedras e Demônios pd53 | Page 201

menções a escritores brasileiros e estrangeiros. Homenagem tam- bém aos que lutaram contra a ditadura no Brasil, e, de modo espe- cífico, os desaparecidos políticos. Neste ponto, há uma coincidência (ou intencionalidade): Ângela termina por remeter, ainda que não de modo direto, a Zuleika Angel Jones, a costureira, a estilista cuja busca pelo corpo do filho desaparecido inspirou a conhecida can- ção de Miltinho e Chico Buarque de Holanda. E também um filme, Zuzu Angel (de 2006). Além do nome, o ponto de aproximação é, por assim dizer, que suas profissões estejam no campo da elegância: uma no paisagismo (a personagem do romance), a outra na moda (a personagem real). Igualmente a busca de um corpo, a vivência de um luto e a expiação de uma dor que não se conclui: a paisagista busca o marido, a estilista buscou o filho. Por fim, duas ou três palavras sobre o título do romance e seu significado. Há um inteligente jogo entre a vida da personagem cen- tral, Ângela, e a história do Brasil. Ela tem presente a primavera com Danilo enquanto vive o seu próprio outono – outono que, por sinal, espelha a estação em que ocorreu o golpe que resultou na ditatura militar que perdurou de 1964 a 1985. Outono começa com a frase “é época das hortênsias”, e termina com “era uma tarde quente de verão, mas eu comecei a sentir frio”. Seja pela epígrafe, seja no desdobrar de sua cronologia de interesse histórico-didático, o livro é mais um romance sobre um romance – um idílio em tempos de desespero e desassossego – do que propriamente uma narrativa calcada em profundas elaborações literárias. O seu objetivo parece claro: fazer sentir, fazer pensar, promover uma empatia lírica com o seu leitor, a partir da história/memória de uma mulher que reflete sobre as páginas infelizes da memória/história do seu país. Se no amplo simbolismo das Hortênsias mencionam-se a cora- gem, a determinação e a honra, tudo isto se reflete na vida de Ângela da primeira à última frase do livro da sua vida, entre flores, livros e pessoas. Por fim, o Outono, a aceitar-se mais aceita, é a estação da plenitude: auctus (aumentar) e “annus” (ano). Na plenitude de um ano ou de todas suas décadas, cada personagem vive suas buscas. Ângela que encontra mais de si enquanto espera e procura seus amados; Danilo que encontra a morte enquanto busca mais vida para o seu país; Francisco que sai de cena meio à maneira de deus ex machina, vai à procura de si em outros orientes; e o leitor que encontra este Outono pode buscar nele a inspiração para os mila- gres de outras primaveras e invernos, e a despeito das estações, sinta calor – e do melhor: humano – na história-romance contada por Lucilia Garcez. Sobre a obra: Outono, de Lucília Garcez. Outubro Edições, Bra- sília, 2018, 184 p. Idílio e desassossego 199