menções a escritores brasileiros e estrangeiros. Homenagem tam-
bém aos que lutaram contra a ditadura no Brasil, e, de modo espe-
cífico, os desaparecidos políticos. Neste ponto, há uma coincidência
(ou intencionalidade): Ângela termina por remeter, ainda que não
de modo direto, a Zuleika Angel Jones, a costureira, a estilista cuja
busca pelo corpo do filho desaparecido inspirou a conhecida can-
ção de Miltinho e Chico Buarque de Holanda. E também um filme,
Zuzu Angel (de 2006). Além do nome, o ponto de aproximação é, por
assim dizer, que suas profissões estejam no campo da elegância:
uma no paisagismo (a personagem do romance), a outra na moda
(a personagem real). Igualmente a busca de um corpo, a vivência de
um luto e a expiação de uma dor que não se conclui: a paisagista
busca o marido, a estilista buscou o filho.
Por fim, duas ou três palavras sobre o título do romance e seu
significado. Há um inteligente jogo entre a vida da personagem cen-
tral, Ângela, e a história do Brasil. Ela tem presente a primavera
com Danilo enquanto vive o seu próprio outono – outono que, por
sinal, espelha a estação em que ocorreu o golpe que resultou na
ditatura militar que perdurou de 1964 a 1985. Outono começa com
a frase “é época das hortênsias”, e termina com “era uma tarde
quente de verão, mas eu comecei a sentir frio”. Seja pela epígrafe,
seja no desdobrar de sua cronologia de interesse histórico-didático,
o livro é mais um romance sobre um romance – um idílio em tempos
de desespero e desassossego – do que propriamente uma narrativa
calcada em profundas elaborações literárias. O seu objetivo parece
claro: fazer sentir, fazer pensar, promover uma empatia lírica com o
seu leitor, a partir da história/memória de uma mulher que reflete
sobre as páginas infelizes da memória/história do seu país.
Se no amplo simbolismo das Hortênsias mencionam-se a cora-
gem, a determinação e a honra, tudo isto se reflete na vida de Ângela
da primeira à última frase do livro da sua vida, entre flores, livros e
pessoas. Por fim, o Outono, a aceitar-se mais aceita, é a estação da
plenitude: auctus (aumentar) e “annus” (ano). Na plenitude de um
ano ou de todas suas décadas, cada personagem vive suas buscas.
Ângela que encontra mais de si enquanto espera e procura seus
amados; Danilo que encontra a morte enquanto busca mais vida
para o seu país; Francisco que sai de cena meio à maneira de deus
ex machina, vai à procura de si em outros orientes; e o leitor que
encontra este Outono pode buscar nele a inspiração para os mila-
gres de outras primaveras e invernos, e a despeito das estações,
sinta calor – e do melhor: humano – na história-romance contada
por Lucilia Garcez.
Sobre a obra: Outono, de Lucília Garcez. Outubro Edições, Bra-
sília, 2018, 184 p.
Idílio e desassossego
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