e vivia em harmonia com os animais, as plantas e a natureza em
geral. Quanto a Danilo, o seu significado sintetiza bem a vida do per-
sonagem: “o Senhor é meu juiz”. Ainda que o Senhor, no seu caso,
não seja o deus dos judeus nem qualquer outro tipo de deus, mas o
da sua fé na Humanidade. A mesma fé reaparece, como vitória, na
sua única filha. Ao escrever essa filha, Lucilia Garcez fez com que
revivesse Danilo como uma permanência, arquétipo talvez de todos
os desaparecidos políticos no Brasil, e com isto compôs a verdadeira
história do seu humanismo, de sua humanidade, antonomásia de
quantos e quantos lutaram por um país mais justo e mais humano.
Quanto a Francisco, há algo mais a dizer, além de associá-lo
ao santo. Por sinal, é curioso que numa história que trata de uma
terrível História os nomes de batismos dos personagens, sejam de
um modo ou de outro, remetam a um simbolismo muito positivo e
religioso até: Ângela (um anjo, ainda que se saiba desde Rilke que
todo anjo é terrível), Vitória, Danilo, Francisco, e sem esquecer da
personagem secundária, Paula, que é o feminino do nome do fun-
dador do Cristianismo e cujo significado remete à humildade.
Nos últimos parágrafos de Outono, tem-se no seu movimento de
evasão o significado pleno do nome Francisco: “franco”, “livre”. Mesmo
os que quiserem associá-lo mais simplesmente ao “francês” encon-
trarão numa das passagens do romance uma menção a uma viagem
à França - especificamente à casa do pintor Monet - um exemplo de
Locus amoenus. Claro que, nesse caso, reflete o desejo da paisagista
encontrar-se num “voo” ao lugar idílico do pintor impressionista e
cujas pinturas da natureza e ao ar livre são tão famosas. Outono tem,
sob alguns aspectos, um caráter também impressionista e expres-
sionista. O idílio habita o desassossego – e vice-versa.
O que é, em resumo, Outono? Um romance histórico? O mais
acertado seria dizer que o seu tema parte da História, à vol d’oi-
seau, como também à vol d’oiseau é contada cada vida dos per-
sonagens. Não há aprofundamentos psicológicos ou narrativos, e
o que a romancista apresenta é um percurso quase sem conflitos,
exceto no momento da tortura de Danilo, mas, mesmo assim,
narrado, a partir de um esquema um tanto quanto convencio-
nal de carrasco/vítima, ativo/passivo. Há também o momento
em que a filha se opõe ao namoro da mãe com um homem mais
moço, mas pouco dura esse conflito, e o idílio mais uma vez
vence o desassossego.
Narrado com simplicidade e clareza, e sem lançar mão de nenhum
tipo de rebuscamento literário, Outono é, sobretudo, uma homena-
gem à literatura, ao mundo dos livros. Seja na figura de Francisco
e Ângela, seja na da livraria dele (e que não tardará a ser dela), nas
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Mário Hélio Gomes