Ângela é casada com Danilo. Depois que este é preso e não volta
mais para casa, ela passa, a princípio, a nutrir a esperança do seu
regresso. Como na canção da MPB: “Se eu demorar uns meses /
Convém, às vezes, você sofrer / Mas depois de um ano eu não vindo /
Ponha a roupa de domingo / E pode me esquecer se eu”. Não é isto,
no entanto, que faz a mulher, quando, depois de negar mil vezes,
conforma-se com a horrorosa certeza de que o marido foi morto e
torturado por militares, um dos tantos da grande lista dos desapare-
cidos por atos do regime civil-militar que golpeou o Brasil em 1964.
Ela passa a viver em permanente autotortura por causa de sua
perda e de toda uma vida não vivida pelo seu amado. A sublimação, por
fim, acontece, de duas maneiras: o nascimento da sua filha única, Vitó-
ria. Ela é a herança e a presença do pai, Danilo. A superação, porém,
consolida-se de vez quando conhece Francisco, o dono de uma pequena
livraria, que é, pelo menos em uma década, mais jovem do que ela.
Seria Ângela uma espécie de Penélope urbana? De uma certa
maneira, sim. Mas, convém sublinhar que, na sua espera, tece
junto às suas próprias memórias as do seu país. Memórias de uma
história. A sua. A do Brasil. Não que uma espelhe exatamente a
outra, mas porque ambas são feitas de pequenos nadas falhados;
corações, mentes e corpos sofridos. Nada há de épico em Outono.
Nem propriamente de trágico, embora haja uma tragédia no nega-
tivo da foto: a vida inteira que podia ter sido e não foi. Sob a voz de
Álvaro de Campos foi que perguntou o poeta Fernando Pessoa:
Ah, quem escreverá a história do que poderia ter sido? / Será
essa, se alguém a escrever, / A verdadeira história da humanidade.
Outono é uma narrativa lírica, ou, de modo mais exato, um idí-
lio, usada esta palavra com um sentido bem diverso do original, ou
quase oposto. A ênfase no “quase” cabe, pois a ‘filiação’ da narra-
tiva ao Idílio se encontra em certos simbolismos sutilmente postos
nesse romance. A profissão da protagonista é o paisagismo. É um
mundo feito de verde e de renascimentos o seu, ainda que a sua
realidade mais bruta seja a da canção “Pra não dizer que não falei
das flores”. Ela, no entanto, insiste em falar e fazer falar as flores,
não só porque “acredita nas flores vencendo o canhão”, mas porque
essa é a sua vida. Ela, própria, ela mesma, é também uma flor –
“somos flores”, disse Molly sobre o feminino. Tem uma filha que é
historiadora, porque filha da História. Se um jardim é uma forma
de paraíso, não o é menos uma livraria (a acreditar-se em Borges,
que afirmou isto a propósito de uma biblioteca).
Se Vitória é a vitória de uma vida (a que podia ter sido e a que
realmente foi), Francisco tem o mesmo nome do santo que predicava
Idílio e desassossego
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