Pedras e Demônios pd53 | Page 198

Idílio e desassossego Mário Hélio Gomes As dezenas de páginas com que se conclui o romance Ulisses, de James Joyce, formam um encadeamento de frases e cenas do pensamento de Molly Bloom. Ficou famoso esse trecho como exemplo da aplicação virtuosa da técnica do monólogo interior, em todo o seu transbordamento. Algo da mentalidade feminina está ali reconstruída, por mais razão que haja tido o médico vienense quanto à dificuldade de saber o que realmente pensa uma mulher. Esta reflexão pode vir à mente ao ler-se qualquer livro em que a razão e a sensibilidade femininas estejam do começo ao fim da narrativa. É assim que acontece no romance Outono, com que a escritora Lucilia Garcez faz sua estreia no gênero. Não se trata de uma comparação – o seu livro nada tem a ver com Joyce, e se alguém quisesse forçar a aproximação de sua história com o escri- tor irlandês tentaria encontrar um paralelo melhor no conto “Os Mortos”. Mas nem aí caberia, pois, por mais que a memória do marido morto esteja onipresente na vida da personagem principal, não é o passado que comanda o seu presente, e sim as suas inquie- tações pessoais para enfrentar o futuro. Como se sua vida servisse para materializar aquele “Caminho” de Camilo Pessanha: Tenho sonhos cruéis; n’alma doente / Sinto um vago receio pre- maturo. / Vou a medo na aresta do futuro, / Embebido em sauda- des do presente.../ Saudades desta dor que em vão procuro/ Do peito afugentar bem rudemente, / Devendo, ao desmaiar sobre o poente, / Cobrir-me o coração dum véu escuro!... / Porque a dor, esta falta de harmonia, / Toda a luz desgrenhada que alumia / As almas doidamente, o céu d’agora, / Sem ela o coração é quase nada: / Um sol onde expirasse a madrugada, / Porque é só madru- gada quando chora. Justamente as madrugadas e o choro chamam a atenção em várias das passagens de Outono. Conciliar o sono e os sonhos é um desafio para quem luta para reconciliar-se com a realidade e con- sigo. A realidade, no caso de Ângela, a personagem, é mais do que a da tal “falta que ama”, a que se refere Drummond, e mais a da “vida inteira que podia ter sido e não foi”, do doloroso verso autobiográ- fico de Manuel Bandeira. 196 Mário Hélio Gomes