Idílio e desassossego
Mário Hélio Gomes
As dezenas de páginas com que se conclui o romance Ulisses,
de James Joyce, formam um encadeamento de frases e cenas
do pensamento de Molly Bloom. Ficou famoso esse trecho como
exemplo da aplicação virtuosa da técnica do monólogo interior, em
todo o seu transbordamento. Algo da mentalidade feminina está
ali reconstruída, por mais razão que haja tido o médico vienense
quanto à dificuldade de saber o que realmente pensa uma mulher.
Esta reflexão pode vir à mente ao ler-se qualquer livro em que
a razão e a sensibilidade femininas estejam do começo ao fim da
narrativa. É assim que acontece no romance Outono, com que a
escritora Lucilia Garcez faz sua estreia no gênero. Não se trata de
uma comparação – o seu livro nada tem a ver com Joyce, e se
alguém quisesse forçar a aproximação de sua história com o escri-
tor irlandês tentaria encontrar um paralelo melhor no conto “Os
Mortos”. Mas nem aí caberia, pois, por mais que a memória do
marido morto esteja onipresente na vida da personagem principal,
não é o passado que comanda o seu presente, e sim as suas inquie-
tações pessoais para enfrentar o futuro. Como se sua vida servisse
para materializar aquele “Caminho” de Camilo Pessanha:
Tenho sonhos cruéis; n’alma doente / Sinto um vago receio pre-
maturo. / Vou a medo na aresta do futuro, / Embebido em sauda-
des do presente.../ Saudades desta dor que em vão procuro/ Do
peito afugentar bem rudemente, / Devendo, ao desmaiar sobre o
poente, / Cobrir-me o coração dum véu escuro!... / Porque a dor,
esta falta de harmonia, / Toda a luz desgrenhada que alumia /
As almas doidamente, o céu d’agora, / Sem ela o coração é quase
nada: / Um sol onde expirasse a madrugada, / Porque é só madru-
gada quando chora.
Justamente as madrugadas e o choro chamam a atenção em
várias das passagens de Outono. Conciliar o sono e os sonhos é um
desafio para quem luta para reconciliar-se com a realidade e con-
sigo. A realidade, no caso de Ângela, a personagem, é mais do que a
da tal “falta que ama”, a que se refere Drummond, e mais a da “vida
inteira que podia ter sido e não foi”, do doloroso verso autobiográ-
fico de Manuel Bandeira.
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Mário Hélio Gomes