infratores da unidade socioeducativa. Fizemos a doação de aproxi-
madamente 460 itens, sendo 201 entre mesas e cadeiras, 142 equi-
pamentos de informática e 112 de materiais de construção usados,
desde divisórias a estrutura de banheiros. Ao receber o material ele
me disse: muitas mães ao visitarem seus filhos tinham que ficar de
pé ou sentadas na quadra. Isto era constrangedor para mim e para
todos que defendem os direitos humanos. Os recursos para aquisi-
ção do scanner foram deixados pela nossa administração no caixa
do Estado. Mangueira é um homem que, como dito num provérbio
chinês, não perdeu a candura de sua infância.
Mas o que mais me empolgava nele era a forma como discur-
sava dialeticamente. Num debate com uma pessoa de diferente
ponto de vista, não tentava vencer ou persuadir o seu opositor de
forma impositiva ou deselegante. Ele fazia questão que não subsis-
tisse qualquer dúvida a respeito dos seus argumentos. Aprendeu
naturalmente com Sócrates, que encontrou na procura da verdade,
através da razão e da lógica, o maior valor durante um processo de
discussão, deixando de lado a retórica, porque nunca visou agra-
dar o seu interlocutor, e a oratória, pois jamais pretendeu vencer
uma conversa através da emoção. Como o Menestrel das Alagoas,
imortalizado na música de Milton Nascimento e Fernando Brandt,
era um saltimbanco falando em rebelião, como quem fala de amo-
res para a moça do portão. Giovanni Pico Della Mirandola, na sua
obra Discurso sobre a dignidade do homem, diz que o homem é
colocado no centro do mundo para poder contemplar as mais dife-
rentes angulaturas do próprio mundo, sendo capaz de realizar ple-
namente suas virtualidades. Este homem, no centro do mundo, é o
homem digno, aquele que direciona sua curiosidade para escolhas
humanistas. Num mundo de tanta desigualdade, de exploração do
homem pelo homem, de falta de fraternidade, é virtuoso construir
para si e para todos a dignidade.
Wellington Mangueira é este homem! Por ser solidário, o res-
peito pela dignidade humana criou raízes em sua alma. Viveu e vive
como um cavaleiro lendário, resgatando valores adormecidos pela
sociedade para construção de um mundo livre, digno e justo. Este
belo livro resgata uma bela história de vida.
Sobre a obra: Continência a um comunista. Wellington Man-
gueira, a história de um sergipano na luta pela redemocratização do
Brasil, de Milton Alves Júnior. Edise, Aracaju, 2018, 316 p.
Wellington Mangueira: O bravo cavaleiro lendário
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