Pedras e Demônios pd53 | Page 205

infratores da unidade socioeducativa. Fizemos a doação de aproxi- madamente 460 itens, sendo 201 entre mesas e cadeiras, 142 equi- pamentos de informática e 112 de materiais de construção usados, desde divisórias a estrutura de banheiros. Ao receber o material ele me disse: muitas mães ao visitarem seus filhos tinham que ficar de pé ou sentadas na quadra. Isto era constrangedor para mim e para todos que defendem os direitos humanos. Os recursos para aquisi- ção do scanner foram deixados pela nossa administração no caixa do Estado. Mangueira é um homem que, como dito num provérbio chinês, não perdeu a candura de sua infância. Mas o que mais me empolgava nele era a forma como discur- sava dialeticamente. Num debate com uma pessoa de diferente ponto de vista, não tentava vencer ou persuadir o seu opositor de forma impositiva ou deselegante. Ele fazia questão que não subsis- tisse qualquer dúvida a respeito dos seus argumentos. Aprendeu naturalmente com Sócrates, que encontrou na procura da verdade, através da razão e da lógica, o maior valor durante um processo de discussão, deixando de lado a retórica, porque nunca visou agra- dar o seu interlocutor, e a oratória, pois jamais pretendeu vencer uma conversa através da emoção. Como o Menestrel das Alagoas, imortalizado na música de Milton Nascimento e Fernando Brandt, era um saltimbanco falando em rebelião, como quem fala de amo- res para a moça do portão. Giovanni Pico Della Mirandola, na sua obra Discurso sobre a dignidade do homem, diz que o homem é colocado no centro do mundo para poder contemplar as mais dife- rentes angulaturas do próprio mundo, sendo capaz de realizar ple- namente suas virtualidades. Este homem, no centro do mundo, é o homem digno, aquele que direciona sua curiosidade para escolhas humanistas. Num mundo de tanta desigualdade, de exploração do homem pelo homem, de falta de fraternidade, é virtuoso construir para si e para todos a dignidade. Wellington Mangueira é este homem! Por ser solidário, o res- peito pela dignidade humana criou raízes em sua alma. Viveu e vive como um cavaleiro lendário, resgatando valores adormecidos pela sociedade para construção de um mundo livre, digno e justo. Este belo livro resgata uma bela história de vida. Sobre a obra: Continência a um comunista. Wellington Man- gueira, a história de um sergipano na luta pela redemocratização do Brasil, de Milton Alves Júnior. Edise, Aracaju, 2018, 316 p. Wellington Mangueira: O bravo cavaleiro lendário 203