Pedras e Demônios pd53 | Page 191

Claudio Santoro, o regional universal Julio Medaglia No centenário do compositor, sua obra deve ser lembrada não só pela variedade de seus experimentos, mas também por seu profundo sentido musical e beleza. O século XX, era das globalizações, atingiu em cheio também os conceitos musicais. Com o mundo inteiro em casa, com tudo dis- ponível ao simples toque de uma tecla de computador, ficou difícil prestigiar valores nascidos ou preservados regionalmente. Um dos grandes conflitos artísticos do século XX foi o “vertical”, digamos assim, aquele que questionava as características das novas tendên- cias e sua inserção no mainstream da história. Foi tão conflitante essa questão que, depois da Primeira Guerra Mundial, os autores resolveram retrair suas fúrias revolucioná- rias partindo, até mesmo, para um neoclassicismo para repensar as ideias. A outra crise era, digamos, “horizontal”. Ou seja, a do relacionamento dos criadores com seus contemporâneos, já que nesse período os relacionamentos internacionais corriam a mil, com o mundo se transformando numa aldeia, como dizia Marshall McLuhan. Curiosamente, uma linguagem bem artificial oriunda do racio- nalismo germânico, o dodecafonismo, no segundo pós-guerra chegou a unificar em torno de si toda uma geração de autores. Você podia ser alemão (Stockhausen), austríaco (Schonberg, Berg, Webern), italiano (Luigi Nono, Bruno Maderna, Luciano Berio), japonês (Toshiro Mayusumi), belga (Pousseur), húngaro (Ligeti), grego (Xenakis), argentino (Juan Carlos Paz), francês (Pierre Bou- lez, Olivier Messiaen), americano (Milton Babbitt, Gunther Schul- ler), polonês (Penderecki) e até russo, como foi o caso de Stravinsky, que no fim da vida aderiu à linguagem em que a ordem era comprar uma lupa e uma pinça e colocar notinha por notinha no papel como se criasse um abstrato mosaico sonoro. No Brasil, com a chegada de Koellreutter, surgiu uma geração de dodecafonistas que, em dado momento, acreditava fervorosa- mente que estar “em dia” com o modernismo ou com a “vanguarda” de seu tempo era escrever com séries de doze sons. Uma das figuras mais expressivas dessa geração brasileira, com a qual tive contato Claudio Santoro, o regional universal 189