Diversamente dessa construção, aceita pela direção nacional
em 1972, uma outra resolução do Comitê Central de 1975 iria defi-
nir o regime como uma ditadura fascista, o que levaria a modifi-
car a natureza da resistência política-democrática, pondo ênfase
na luta antimonopolista e na centralidade da classe operária na
frente antiditatorial. Mesmo nas mais difíceis condições do governo
Médici, Armênio se dizia otimista, chegando a desenhar alguns
cenários nos quais poderia ser modificada aquela situação de 1970
e até mesmo ocorrer o fim do regime. Um deles, o mais próximo do
que iria ocorrer muitos anos depois, seria “a desagregação interna
do poder, sob o impacto do movimento de massas e depois de crises
sucessivas, forçando uma parte do governo a facilitar a abertura
democrática”.
Armênio terá papel importante na discussão havida na segunda
metade dos anos 1970 entre membros da direção e militantes que
estavam no exílio e escreviam no jornal Voz Operária. Esses pece-
bistas começavam a discutir o aprofundamento da linha política
do VI Congresso de 1967 e a pensar na relação entre o avanço das
oposições naquele tempo e o objetivo último do socialismo no Bra-
sil. (Ver os textos de Armênio na coletânea O marxismo político de
Armênio Guedes, Rio de Janeiro/Brasília, Contraponto/FAP, 2012).
Ao conceder entrevista ao Jornal do Brasil, às vésperas da anis-
tia de 1979, Armênio Guedes torna públicas suas discordâncias,
no plano da política, com Prestes, então em conflito aberto com o
Comitê Central. Ele também inclui o tema da relação entre a demo-
cracia e o socialismo, não defendendo as teses sobre o desdobra-
mento da redemocratização em uma transição processual ao socia-
lismo. Não assumiria o que parecia ser uma versão modernizada
do socialismo democrático – a “democracia de massas”, conceito
que emergira nos debates italianos dos anos 1970, após o golpe no
Chile, anunciado pelo intelectual comunista Pietro Ingrao.
Muitos anos depois, em 2008, Armênio participa do programa
“Roda Vida”, da TV Cultura, de São Paulo. Nessa ocasião, ao res-
ponder a uma indagação sobre o caminho democrático ao socia-
lismo dos comunistas italianos que ele tanto valorizava, chegou
a dizer, ao modo de Bobbio, que em luta demorada, desde o fim
do fascismo na Itália, o que o PCI havia trilhado, de fato, era um
caminho democrático para a democracia. (No meu texto “Reflexão
autocrítica e pensamento político” registro os indícios da presença
das ideias de Armênio nas resoluções e textos oficiais do PCB; ideias
que, quase todas publicadas, conformariam pontos do que, a rigor,
seria um pensamento político construído no campo pecebista).
188
Raimundo Santos