próximo e permanente, foi o amazonense Cláudio Santoro, lem-
brado e homenageado neste ano que se inicia pelo centenário de
seu nascimento.
Mente inquieta, que queria açambarcar as coisas do mundo em
sua obra, não só contava na estruturação de suas ideias com os
valores musicais herdados de sua origem, como com toda a movi-
mentação social, política e estética de seu tempo. Com isso, nasceu
o grande conflito de sua postura cultural. Como abdicar do rico
manancial cultural-musical do Brasil e partir para uma música
absolutamente abstrata e isenta de qualquer conceito tradicional,
de qualquer simetria, de qualquer relação com a cultura espon-
tânea regional, dos maneirismos da prática instrumental do Oci-
dente, das inquietações sociopolíticas brasileiras e universais etc.?
No entanto, exatamente aqui residiam as principais característi-
cas de sua personalidade e seu talento. Diferentemente daqueles que
achavam que, por ter nascido num país rico em matéria de cultura
espontânea, deveriam permanecer fieis a elas e só a elas – e diferente
também daqueles que achavam que compor com os doze sons é falar
a única linguagem universal –, Cláudio fez de sua obra um caldeirão
de experimentos da maior variedade, riqueza e consistência. Todas
as reviravoltas, que ocorreram na ebulição musical do século pas-
sado, ele recebia e provocava. E isso ia do frio e calculista dodecafo-
nismo ao bumba meu boi.
Captando e trabalhando com as aventuras do som no século XX,
Cláudio construiu uma obra importante e interessantíssima, e isso
não só pela variedade dos experimentos, mas por seu profundo sen-
tido musical e beleza. Por isso, ele podia lançar mão, quando lhe
dava na telha, do folclore de uma canção de ninar que ouvira na
infância ou da ousadíssima engenharia sonora schonbergiana, pois
tudo em seu trabalho soava boa música. Nada parecia experimento.
Cláudio não fez média com a cultura popular, mas não se tor-
nou escravo das tendências mais avançadas de seu tempo. Por essa
razão, se sua música tinha por vezes a “cor local” brasileira, não
sofria dos males do provincianismo. E quando compunha com os
experimentos mais recentes das vanguardas, eles não pareciam
“maneiristas” nem “artificiais”. Chegar a uma solução estética
dessa natureza é coisa de gênio.
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Julio Medaglia