que falava Hélio Jaguaribe no começo dos anos 1960, indicando o
caminho para seu estudo multidisciplinar, no qual, diz Caio Prado
Jr. no “Adendo” à A revolução brasileira, de 1967, não conseguira
se aprofundar.
Armênio Guedes possuía criativa intuição para analisar a polí-
tica corrente e desenhar seus possíveis desdobramentos no curto e
médio prazos. Na época da crise que abalou o PCB em consequên-
cia da denúncia do stalinismo feita por Kruschev no XX Congresso
do Partido Comunista da União Soviética (PCUS), realizado em feve-
reiro de 1956, Armênio já guardava reserva em relação ao socia-
lismo soviético (cf. Sandro Vaia, Armênio Guedes: sereno guerreiro
da liberdade, prefácio de Ferreira Gullar, São Paulo, Barcarolla,
2013). Ele participa da controvérsia sobre os efeitos do XX Con-
gresso no PCB que irrompe na imprensa pecebista em outubro de
1956, se posicionando de maneira construtiva, isto é, atuando em
um grupo de pecebistas, dentre eles, Giocondo Dias, que buscam
saída à crise do PCB, com vistas a dar-lhe presença ativa na nova
circunstância aberta com a eleição e posse de Juscelino Kubitschek
(JK). Irá focalizar o obstáculo que o dogmatismo da velha mentali-
dade representava, obscurecendo a visão e a ação do PCB.
Nas três décadas seguintes, no contexto da reativação da ação
pecebista, ele iria desenvolver a tese da democratização do país,
apontada bem lá atrás por Caio Prado Jr., em 1935, já referida ante-
riormente. Entretanto, por não ter uma teoria do Brasil, a Armênio
Guedes resultara um tanto difícil, na sua leitura das conjunturas,
mobilizar condicionantes histórico-estruturais que lhe delimitas-
sem um marco programático consistente para movimentar os gran-
des atores sociopolíticos. Assim, sua ruptura com o passado vai
ser uma ruptura com o dogmatismo na sua rígida relação com o
catastrofismo revolucionário, não levando, no entanto, à discussão
da época o seu distanciamento da URSS, embora vá permanecer na
contramão do apoio do seu partido ao socialismo real.
O publicista Armênio Guedes emerge na cena pública dos deba-
tes sobre o XX Congresso do PCUS. Nesse contexto, ele escreve
um primeiro artigo, “Algumas questões da frente única no Brasil”
(cf. revista Novos Rumos, set. 1957). Ele fazia uma correlação crí-
tico-política entre o dogmatismo e a ação partidária requerida pelo
momento, mas subsumida à propaganda dos objetivos últimos,
tática que refletia o que ele chamava de “estratégia de curto prazo”.
A partir da análise da nova situação posta ao PCB, Armênio via a
frente única em torno de questões e problemas reais associada ao
movimento democrático geral que se desenvolvia no país; política
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Raimundo Santos