Pedras e Demônios pd53 | Page 187

lação, então residente no mundo rural. Já a segunda transformação consistirá no adensamento da vida política nacional. Registremos um dado a ser levado em conta no pensamento de Caio Prado Jr. Afora a anotação no livro sobre sua viagem à URSS em 1934 (URSS, um novo mundo), na qual se refere às controvérsias entre dirigentes russos sobre o perigo da burocratização do jovem socialismo (Bukharin), citando a Robert Michels no livro famoso Les partis politiques, Caio Prado Jr. mantém invariável alinhamento ideológico com o socialismo soviético. Não obstante, ele não mobiliza tal adesão como suporte da construção de sua teoria do Brasil (segundo seus críticos de época, ele violara o marxismo-leninismo, ao pôr sua ênfase na dimensão da circulação para explicar a formação social brasileira). Após Evo- lução política do Brasil, publica três, das quatro obras que havia planejado – Formação do Brasil contemporâneo, de 1942 (e sua continuação, que começa a escrever em 1943, História econômica do Brasil, publicada em 1945), e, muito tempo depois, A revolução brasileira (1966). Os dois livros escritos nos anos 1940 lastreiam suas divergências com o PCB, quando atuava, no tempo do Estado Novo, como quadro partidário influente, principalmente nos anos 1944 e 1945. Acrescida a monografia Diretrizes para uma política econômica brasileira, de 1954 (não por acaso publicada no tempo do debate cepalino), essas obras convergem numa visão de Brasil que sustenta suas avaliações da política brasileira nos anos nacio- nal-desenvolvimentistas. No seu itinerário intelectual e publicista, Caio Prado Jr. con- tribui para o desenho de um marco programático e já às vésperas dos levantes de 1935 lança a palavra de ordem da democratização do país e o que anteriormente chamamos de adensamento da polí- tica nacional. Vista em conjunto, sua contribuição visa a superar a esterilidade da política predominante, bem como a “falsa polari- zação” entre interesses personalistas e aventureiros e a oposição udenista, que iriam levar o país a uma situação de “desequilíbrio catastrófico”, como se vê nas suas análises de conjuntura publica- das na Revista Brasiliense entre 1955 e 1964. Esse quadro de teorização para a ação prática (sobre a qual Caio Prado Jr. era cobrado por seus críticos, pois nos primeiros anos do pós-64 ele não valoriza tanto a frente política antiditatorial) fica incompleto se não se menciona suas primeiras anotações sobre o “capitalismo burocrático” brasileiro não produtivista, como já se aludiu, ou mais precisamente sua referência ao Estado cartorial, de Caminho democrático para a democracia 185