Pedras e Demônios pd53 | Page 186

tentativas de democratização dos países socialistas europeus nos anos 1950 e 1960, e em 1976 se começava a ver o fracasso do regime soviético. Somente mais tarde, Gorbatchev iria equacionar o esgotamento do socialismo na própria URSS com a glasnost e a perestroika, que igualmente não teriam sucesso. Vista agora, 97 anos da sua fundação, a esquerda histórica bra- sileira mostra uma longa evolução, passando, no tempo contempo- râneo, por um processo de conversão de um partido revolucionário em partido da política, nessa medida cada vez mais propenso a valorizar a democracia política. As formulações se sucedem num percurso pouco linear, marcado por avanços e recuos, pois foi bem custoso o caminho dos pecebistas em direção à democracia como via ao socialismo e, é mais complexo dizê-lo, até mesmo como meta última para alcançar os seus próprios objetivos reformadores, como deixaremos sugerido no final destas notas, citando uma das mais expressivas vozes do campo pecebista. Pode-se observar isso em duas formulações intelectuais que se desenvolvem durante décadas e se fazem presentes no sistema de orientação e na prática do PCB (e mesmo em sua cultura política, se assim é possível qualificá-los). Provêm de notáveis militantes: Caio Prado Jr. e Armênio Guedes, um quadro de larga experiência no PCB, e podem ser consideradas como elaborações paralelas que, no entanto, perfilam um campo democrático e reformista na esquerda clássica. Como a teorização caiopradiana, que vem de bem longe, mas não teve livre circulação no seu partido, a formulação mais con- temporânea e persistente no interior do PCB tampouco chegou a se concluir. Entretanto, esta foi a elaboração que iria comparecer ao debate eurocomunista ocorrido em meados dos anos 1970, época dos equacionamentos mais emblemáticos de Norberto Bobbio em seus debates sobre o socialismo e a democracia, acima referidos. Temos, assim, uma teorização da revolução brasileira mais antiga, cujos primeiros sinais aparecem em textos de Caio Prado Jr. publicados em 1934 e 1935. Já delineada no seu livro de 1933 (Evolução política do Brasil), ela se sustentará na teoria do Brasil singular que se consolida nas obras que ele publica entre 1942 e os anos 1960. Também se pode dizer que esta primeira linha intelectual termina desenhando um programa de reestruturações da economia e da vida política nacional que seriam as grandes transformações da nossa revolução. Marca a transformação econômica o objetivo de construir uma modernização no sentido de uma reestruturação de teor produtivo, de modo a afirmar a nacionalidade (incorporando ao trabalho moderno) e a superar a miserabilidade da maioria da popu- 184 Raimundo Santos