Pedras e Demônios pd53 | Page 185

Caminho democrático para a democracia Raimundo Santos N orberto Bobbio, o interlocutor dos comunistas italianos, ter- mina o balanço dos seus diálogos sobre o socialismo e a demo- cracia, que se estendem da década de 1950 até o começo dos anos 1980, dizendo: “A democracia, já foi dito, é o caminho. Mas para onde?”. Na primeira série de colóquios, ocorrida entre 1951 e 1955, escreve artigos e recebe críticas, então acreditando que o socialismo ainda podia assumir forma democrática no exercício do poder oriundo da Revolução de 1917. Já o diálogo ocorrido entre 1975 e 1976 teve maior repercussão, pois esses eram os anos em que alguns partidos comunistas (ita- liano, francês e espanhol, principalmente) buscavam alternativas democráticas ao socialismo realmente existente nesse momento. Em dois textos escritos em 1975, chamados “Existe uma dou- trina marxista do Estado?” e “Quais as alternativas à democracia representativa?”, ele não só se distanciara da hipótese mais antiga quanto à evolução democrática do socialismo, como questionava sobre a possibilidade de o próprio marxismo ter uma teoria das instituições democráticas. Nessa segunda série de colóquios, Bobbio já não nutre expec- tativa em relação ao socialismo real e indaga os marxistas sobre quais eram as alternativas ao modo democrático de governar. Haviam passado vinte anos e a interpelação de Bobbio seguia sem resposta convincente. Já se refletira muito sobre os insucessos das Caminho democrático para a democracia 183