seu horizonte tacanho de captação. Para elas, já são boas as obras
medíocres. Também é possível fazer uma leitura crítica complexa
de obras simples, simplórias. Daí vai parecer que o sujeito apenas
desanca o pau, quando de fato ele gostaria de levar os leitores a
perceber obras de melhor nível. Se eles não tiverem, porém, essa
vivência densa e complexa e acurada de grandes obras, não vão
perceber as obras simples em sua simploriedade. Assim como se
aprende a ler uma obra de arte, aprende-se a ler também a reali-
dade, o perfil das instituições, os atos do governo.
Em Kant, Deus não é apenas uma ideia da razão, mas a Santís-
sima Trindade mais a Virgem Maria são a estrutura mesma da mente
pensante. É um modelo europeu, católico, de uma era anterior à
“morte de Deus”. Ele é um modelo mecânico. Da primeira para a
segunda edição da Crítica da razão pura, a liberdade quase evapora.
Tem-se um modelo para a “máquina administrativa do Estado de
Direito”, mas não há espaço propriamente para a arte, pois ela não
tem lugar nas meras percepções, já que ela, uma percepção estrutu-
rada e significativa, não tem lugar no espaço do entendimento con-
ceitual, ela não se confunde com um juízo, para ficar no teto, entre
os quartos e o telhado, como também não tem espaço na razão, já
que lá só as vivências do sublime podem repinicar nas ideias.
Se a arte não tem um lugar próprio, ela é um estorvo, ela não
tem razão de ser. Se ela é para ser o exercício da ideia de liberdade,
esta é uma ideia vazia, pois não se contrapõe a nada que seja uma
coerção. O “Estado” aí não tem coerção nem exploração de mão de
obra e nem classes; a “mente” não tem aí um “superego”, uma ins-
tância repressiva interiorizada, mas ela também não tem instintos,
pulsões, tensões afetivas, valores. Ela é apenas uma máquina de
pensar, assim como o Estado é uma maquinaria administrativa.
Descartes, ao optar pelo modelo matemático (antes aritmético)
de verdade, além de pressupor que tudo seria redutível ao numérico,
como se este esgotasse o real, retomou o modelo grego de verdade
como “homoiesis”: 2 + 2 = 4. Sob a aparência de uma revolução cien-
tífica moderna, manteve-se dentro da tradição: X = Y. Seja supondo
que há um mundo das ideias que é copiado para a realidade, seja
uma realidade que se reflete no mundo ideativo, o que se tem é uma
equivalência, uma equiparação. Kant rompeu com isso ao dizer que a
imagem que temos na mente do fenômeno das coisas não é a própria
coisa, portanto A ≠ A. Ele não examinou o que significaria isso para
a revisão do conceito de verdade, achou que podia continuar com a
antiga “coincidência” entre coisa e concepção mental. Por natureza,
o que está na mente é diferente das coisas.
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Flávio R. Kothe