Heidegger propôs um retorno mais radical aos gregos com o con-
ceito de “alétheia”, em que a coisa vai se desencobrindo para o sujeito
existencial: ela se revela, desvela e novamente vela. No chamado Hei-
degger II, no Vom Ereignis (Do acontecimento), ele procura nuançar
isso: quando algo se desencobre, está ao mesmo tempo encobrindo
outros aspectos, o ver pode ser um modo de não ver, todo mostrar-se
é um esconder. Mesmo que a “coisa” fique negaceando para lá e para
cá, mostrando para esconder, escondendo para mostrar, o que está
subjacente ainda é a concepção de “homoiesis”, de uma equivalência
entre o que está na mente e o que a coisa seja. Mesmo que se diga
que o sujeito deve ter a liberdade interior para receber os diversos
aspectos do objeto e que a coisa deve ter a liberdade de se mostrar
como ela é, não se altera a busca de uma coincidência entre o que
está na mente e o que seja a realidade.
Há diferenças, contudo: 1) não se quer confundir a verdade com
a redução dela à correção conforme paradigmas, pois estes não
conseguem apreender a complexidade dinâmica do real; 2) não se
pode reduzir a verdade a algo fixo, imutável, até mesmo eterno,
cujo modelo seria matemático; 3) não se quer reduzir a realidade
ao quantitativo, pois este não a abrange; 4) o “matemata” deve ser
entendido como aquilo que se pode aprender e transmitir de algo, o
que se pode “contar” a respeito, e não apenas contabilizar; 5) deve-se
abranger o máximo de aspectos relevantes do objeto, não os escon-
dendo sob uma profusão de detalhes supérfluos; 6) não existe uma
alma eterna como fundamento do eu e do conhecimento, pois o
ser humano é um finito, que acaba com a morte; 7) o eu cognos-
cente está em relações mutáveis e mutantes, que alteram não só
as circunstâncias, mas até a ele mesmo; 8) o eu não se confunde
com a dimensão consciente, pois esta é como uma espuma sobre
o mar das pulsões inconscientes; 9) o tempo do conhecimento não
é apenas uma sequência linear, sucessiva, e sim presença do pas-
sado e antecipação do futuro no presente; 10) o espaço cognitivo se
dá do homem como um estar no mundo em companhia de outros
humanos, portanto, não faz sentido falar em verdade revelada,
como oriunda de uma fonte divina, seja Apolo, Jeová ou o Espírito
Santo; 11) o belo não é mais a expressão sensível do correto, con-
forme foi ao longo de sua história controlada pelo poder; 12) o belo
é um exercício da liberdade criativa necessária para se buscar o
verdadeiro; 13) a arte como repositório do belo precisa fazer parte
da formação dos jovens para eles poderem se tornar cidadãos cons-
cientes; 14) a arte é um refúgio da mente em tempos de opressão e
permite sugerir o que de outros modos não se pode dizer; 15) a arte
torna a vida mais suportável e melhor, inclusive de um povo todo.
Arte e revelação
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