Pedras e Demônios pd53 | Page 181

Heidegger propôs um retorno mais radical aos gregos com o con- ceito de “alétheia”, em que a coisa vai se desencobrindo para o sujeito existencial: ela se revela, desvela e novamente vela. No chamado Hei- degger II, no Vom Ereignis (Do acontecimento), ele procura nuançar isso: quando algo se desencobre, está ao mesmo tempo encobrindo outros aspectos, o ver pode ser um modo de não ver, todo mostrar-se é um esconder. Mesmo que a “coisa” fique negaceando para lá e para cá, mostrando para esconder, escondendo para mostrar, o que está subjacente ainda é a concepção de “homoiesis”, de uma equivalência entre o que está na mente e o que a coisa seja. Mesmo que se diga que o sujeito deve ter a liberdade interior para receber os diversos aspectos do objeto e que a coisa deve ter a liberdade de se mostrar como ela é, não se altera a busca de uma coincidência entre o que está na mente e o que seja a realidade. Há diferenças, contudo: 1) não se quer confundir a verdade com a redução dela à correção conforme paradigmas, pois estes não conseguem apreender a complexidade dinâmica do real; 2) não se pode reduzir a verdade a algo fixo, imutável, até mesmo eterno, cujo modelo seria matemático; 3) não se quer reduzir a realidade ao quantitativo, pois este não a abrange; 4) o “matemata” deve ser entendido como aquilo que se pode aprender e transmitir de algo, o que se pode “contar” a respeito, e não apenas contabilizar; 5) deve-se abranger o máximo de aspectos relevantes do objeto, não os escon- dendo sob uma profusão de detalhes supérfluos; 6) não existe uma alma eterna como fundamento do eu e do conhecimento, pois o ser humano é um finito, que acaba com a morte; 7) o eu cognos- cente está em relações mutáveis e mutantes, que alteram não só as circunstâncias, mas até a ele mesmo; 8) o eu não se confunde com a dimensão consciente, pois esta é como uma espuma sobre o mar das pulsões inconscientes; 9) o tempo do conhecimento não é apenas uma sequência linear, sucessiva, e sim presença do pas- sado e antecipação do futuro no presente; 10) o espaço cognitivo se dá do homem como um estar no mundo em companhia de outros humanos, portanto, não faz sentido falar em verdade revelada, como oriunda de uma fonte divina, seja Apolo, Jeová ou o Espírito Santo; 11) o belo não é mais a expressão sensível do correto, con- forme foi ao longo de sua história controlada pelo poder; 12) o belo é um exercício da liberdade criativa necessária para se buscar o verdadeiro; 13) a arte como repositório do belo precisa fazer parte da formação dos jovens para eles poderem se tornar cidadãos cons- cientes; 14) a arte é um refúgio da mente em tempos de opressão e permite sugerir o que de outros modos não se pode dizer; 15) a arte torna a vida mais suportável e melhor, inclusive de um povo todo. Arte e revelação 179