Pedras e Demônios pd53 | Page 179

Quando Heidegger faz, em sua obra dita magna, a “analítica da existência”, ele não consegue perceber que a existência não é analítica, mas sintetizadora o tempo todo e por toda a parte. Seus conceitos básicos – Sorge, Dasein, Mitsein, in der Welt sein: preo- cupação, estar aí, estar com, estar no mundo – são todos conceitos que implicam atividades sintetizadoras o tempo todo: se tenho pre- ocupação, eu me preocupo com algo por algum motivo; se estou aí, não estou só nem só por mim; se estou com outros, isso significa aproximações e distanciamentos descontínuos; se estou no mundo, eu sou o que sou por estar e conviver com o que e com quem eu não sou. Claro que se camufla isso quando se traduzir estar por ser: da ocupação de um espaço para uma essência em si e por si. A “maior obra filosófica do século XX” é profundamente errada. A existência não é analítica, ela é sintetizadora. Mesmo o conceito “sein zum Tode”, mal traduzido como ser para a morte, não significa que exis- timos simplesmente para morrer, mas que, estando aí, podemos ser atingidos pela morte a qualquer momento. Se o sujeito é síntese contraditória, não só ele vai produzir obras diferentes ao longo da vida, por causa das mudanças que sofre, mas ele vai captar de modo diferente obras que são nominalmente as mesmas e que nele hão de constituir objetos estéticos diversi- ficados. Não se faz uma simples “análise” da obra de arte: o con- texto se insere em seu texto e faz parte de sua leitura. A obra que se constitui da relação entre suporte material de artefato e objeto estética não é sempre a mesma. Fazer “análise da arte” é impor uma versão dela como a única válida. Isso não significa que se possa dizer qualquer coisa da obra: ela tem as marcas dos códigos de leitura e de sua codificação no artefato. Na Fenomenologia do espírito, Hegel, na dialética de senhor e servo, insistiu que um polo depende do outro, penetra no outro, se torna o seu outro. Quando, digamos, um homem e uma mulher se amam, cada um assume traços do outro, interioriza a presença de seu alter e se altera. Então não temos mais apenas A e B, mas Ab com Ba. Se tiverem um filho, ele não será apenas AbBa e sim AbBaX, com um adicional e sub- trações que podem torná-lo bastante diferente dos pais. Da revelação Pascal dizia que a pessoa interessante enxerga várias pessoas bem interessantes pela vida afora. Se ela não tiver essa diferencia- ção em si, ela não vai perceber a diferenciação em outras. Se uma obra de arte for densa e complexa, as pessoas simplórias vão ter uma captação muito singela e não vão perceber o que vai além do Arte e revelação 177