Quando Heidegger faz, em sua obra dita magna, a “analítica
da existência”, ele não consegue perceber que a existência não é
analítica, mas sintetizadora o tempo todo e por toda a parte. Seus
conceitos básicos – Sorge, Dasein, Mitsein, in der Welt sein: preo-
cupação, estar aí, estar com, estar no mundo – são todos conceitos
que implicam atividades sintetizadoras o tempo todo: se tenho pre-
ocupação, eu me preocupo com algo por algum motivo; se estou aí,
não estou só nem só por mim; se estou com outros, isso significa
aproximações e distanciamentos descontínuos; se estou no mundo,
eu sou o que sou por estar e conviver com o que e com quem eu não
sou. Claro que se camufla isso quando se traduzir estar por ser: da
ocupação de um espaço para uma essência em si e por si. A “maior
obra filosófica do século XX” é profundamente errada. A existência
não é analítica, ela é sintetizadora. Mesmo o conceito “sein zum
Tode”, mal traduzido como ser para a morte, não significa que exis-
timos simplesmente para morrer, mas que, estando aí, podemos
ser atingidos pela morte a qualquer momento.
Se o sujeito é síntese contraditória, não só ele vai produzir obras
diferentes ao longo da vida, por causa das mudanças que sofre,
mas ele vai captar de modo diferente obras que são nominalmente
as mesmas e que nele hão de constituir objetos estéticos diversi-
ficados. Não se faz uma simples “análise” da obra de arte: o con-
texto se insere em seu texto e faz parte de sua leitura. A obra que
se constitui da relação entre suporte material de artefato e objeto
estética não é sempre a mesma. Fazer “análise da arte” é impor
uma versão dela como a única válida. Isso não significa que se
possa dizer qualquer coisa da obra: ela tem as marcas dos códigos
de leitura e de sua codificação no artefato.
Na Fenomenologia do espírito, Hegel, na dialética de senhor e servo,
insistiu que um polo depende do outro, penetra no outro, se torna o seu
outro. Quando, digamos, um homem e uma mulher se amam, cada um
assume traços do outro, interioriza a presença de seu alter e se altera.
Então não temos mais apenas A e B, mas Ab com Ba. Se tiverem um
filho, ele não será apenas AbBa e sim AbBaX, com um adicional e sub-
trações que podem torná-lo bastante diferente dos pais.
Da revelação
Pascal dizia que a pessoa interessante enxerga várias pessoas
bem interessantes pela vida afora. Se ela não tiver essa diferencia-
ção em si, ela não vai perceber a diferenciação em outras. Se uma
obra de arte for densa e complexa, as pessoas simplórias vão ter
uma captação muito singela e não vão perceber o que vai além do
Arte e revelação
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