Pedras e Demônios pd53 | Page 178

Das contradições Kant tem várias contradições internas. Uma delas é que, a partir da segunda edição da KrV (Kritik der reinen Vernunft, Crítica da razão pura), ele colocou o juízo sintético como equivalente ao analítico, o que já era uma revolução quanto à escolástica, mas, na primeira edi- ção, ele disse que o juízo analítico resulta de juízes sintéticos, deriva deles que constituem o verdadeiro processo de conhecimento. Aí, para ele, o juízo analítico apenas explicita o já sabido: nesse sentido, nada acrescenta. O exemplo que ele dá de juízo sintético – ou seja, 5 + 7 = 12 – não é sintético e sim uma lógica analítica do número, como Hegel já observou. Todas as figuras de linguagem são, no entanto, juízos sintéticos. Sem eles não se entende a arte. O próprio sujeito do conhecimento vai se formando em contato com pessoas e coisas do mundo, portanto num processo descon- tínuo de ligações do eu com o não-eu, mas em que o importante é a relação entre ambos. O próprio eu não é analítico, e sim sinté- tico. Ele junta o seu momento presente com lembranças de si no passado e antecipações do que espera no futuro, de maneira que a força da imaginação o sintetiza. Isso significa que ele não é uma unidade numérica, autoidêntica. Ele se modifica ao longo do tempo: se não há uma unidade absoluta, ele não é eterno, está no tempo. Se ele fosse uma unidade a priori, eterna, sua ação no corpo seria predeterminada por sua estruturação, de maneira que ele estaria condenado ao inferno ou à salvação celeste por uma determinação divina. Se ele se modifica, essa alma também se decompõe, recom- põe e no fim morre. O eu empírico é complexo e mutante, não se confunde com o eu numérico, que é uma abstração de si. Mesmo que esse eu numérico fosse entendido como um mínimo denominador comum, este mínimo depende dos fatores da equação. Ele próprio se modifica. Não é o mesmo para 6-9-12 ou para 4- 8-12. Nada dessa argumentação lógica adianta para quem quer a sua alma imortal guardada nele, pronta para disparar à eternidade assim que ele bater as botas. Ele se ama tanto, ele se acha tão precioso que deve ser preservado para sempre. Ele não consegue superar seu narcisismo. Este existe mesmo quando ele sente com- paixão por Cristo na cruz e se identifica com ele. Ele quer no Cristo um passaporte para a eternidade. É bom que tenha morrido, para garantir a salvação do cristão. A comoção que ele sente num culto religioso tem algo da contemplação estética, mas ele não consegue ver neste uma encenação teatral, sempre repetida. Está em jogo a sua eternidade, não o destino dos personagens. 176 Flávio R. Kothe