Das contradições
Kant tem várias contradições internas. Uma delas é que, a partir
da segunda edição da KrV (Kritik der reinen Vernunft, Crítica da razão
pura), ele colocou o juízo sintético como equivalente ao analítico, o
que já era uma revolução quanto à escolástica, mas, na primeira edi-
ção, ele disse que o juízo analítico resulta de juízes sintéticos, deriva
deles que constituem o verdadeiro processo de conhecimento. Aí,
para ele, o juízo analítico apenas explicita o já sabido: nesse sentido,
nada acrescenta. O exemplo que ele dá de juízo sintético – ou seja, 5
+ 7 = 12 – não é sintético e sim uma lógica analítica do número, como
Hegel já observou. Todas as figuras de linguagem são, no entanto,
juízos sintéticos. Sem eles não se entende a arte.
O próprio sujeito do conhecimento vai se formando em contato
com pessoas e coisas do mundo, portanto num processo descon-
tínuo de ligações do eu com o não-eu, mas em que o importante é
a relação entre ambos. O próprio eu não é analítico, e sim sinté-
tico. Ele junta o seu momento presente com lembranças de si no
passado e antecipações do que espera no futuro, de maneira que
a força da imaginação o sintetiza. Isso significa que ele não é uma
unidade numérica, autoidêntica. Ele se modifica ao longo do tempo:
se não há uma unidade absoluta, ele não é eterno, está no tempo.
Se ele fosse uma unidade a priori, eterna, sua ação no corpo seria
predeterminada por sua estruturação, de maneira que ele estaria
condenado ao inferno ou à salvação celeste por uma determinação
divina. Se ele se modifica, essa alma também se decompõe, recom-
põe e no fim morre. O eu empírico é complexo e mutante, não se
confunde com o eu numérico, que é uma abstração de si. Mesmo que
esse eu numérico fosse entendido como um mínimo denominador
comum, este mínimo depende dos fatores da equação. Ele próprio se
modifica. Não é o mesmo para 6-9-12 ou para 4- 8-12.
Nada dessa argumentação lógica adianta para quem quer a
sua alma imortal guardada nele, pronta para disparar à eternidade
assim que ele bater as botas. Ele se ama tanto, ele se acha tão
precioso que deve ser preservado para sempre. Ele não consegue
superar seu narcisismo. Este existe mesmo quando ele sente com-
paixão por Cristo na cruz e se identifica com ele. Ele quer no Cristo
um passaporte para a eternidade. É bom que tenha morrido, para
garantir a salvação do cristão. A comoção que ele sente num culto
religioso tem algo da contemplação estética, mas ele não consegue
ver neste uma encenação teatral, sempre repetida. Está em jogo a
sua eternidade, não o destino dos personagens.
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Flávio R. Kothe