homem, conditio sine qua non para ele ser humano, conteria embu-
tida, como contrapartida recôndita, o que depois se chamou de a
morte de Deus, ou seja, que a religião passa a ter cada vez menos
relevância nas grandes decisões pessoais em países cada vez mais
civilizados. O crente acha que a verdade é aquilo em que ele crê, ainda
que a única verdade seja o que ele crê. Aliás, ele nem crê que crê: está
convencido de que tudo é como ele imagina em sua crença que seja.
Entre ele salvar a alma, que ele crê ter, e exercer a sua pró-
pria liberdade crítica, prefere a salvação dita eterna, embora nunca
tenha voltado da morte para garantir que haveria outra vida depois.
Ele se ama tanto e se acha tão precioso que supõe merecer a eter-
nidade. Não admite ser um ente finito. Desperdiça assim muito
da única vida que tem. E estraga a vida de muitos outros. Quanto
menos suas crenças resistem a argumentos, mais autoritário ele se
torna e menos é capaz de escutar.
Um deus único e todo poderoso se torna a projeção de uma
mente prepotente e autoritária que, por sua vez, se sente legitimada
e auratizada por aquilo que ela ajudou a criar e não sabe. Ortodoxia
religiosa se contrapõe à liberdade, exceto se tiver o cinismo ou a pie-
dade de achar que os outros não estarão salvos (como ele supõe estar).
Na arquitetura do sistema kantiano, os sentidos são os servos
que fornecem dados, os materiais brutos, para o entendimento, que
já estão no nível da alma, como se fosse um senhor feudal, um
Espírito Santo, enquanto a vontade se localiza na razão como um
Deus Pai, um monarca. Onde fica a liberdade aí? Nesse sistema
rígido, o belo precisa agradar sem conceito, porque o corpo não
pensa: embora se aparente ter apreendido o momento de surpresa
que há na vivência estética, será que não há já uma compreen-
são do que se passa no espanto em que se fica? Como é que um
servo pode de repente passar de peão a rainha, como num jogo de
xadrez? Das muitas percepções inconscientes, as poucas que são
conscientizadas ocorrem por um estado de exceção, por chamarem
a atenção num julgamento que ocorreu no sujeito sem ele saber.
O juízo sintético ocorre nas relações que o sujeito estabelece
entre objetos que sejam semelhantes, próximos, causais ou oposi-
cionais, mas também ocorre no próprio sujeito, de maneira que ele
possa conjugar a sua vivência presente com experiências pretéritas
de si mesmo e até antecipações que ele faz do que pretende. Além
disso, ocorrem sínteses na própria percepção e avaliação incons-
ciente. O inconsciente não é apenas “psíquico”: a maior parte dele
é fisiológico.
Arte e revelação
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