Pedras e Demônios pd53 | Page 177

homem, conditio sine qua non para ele ser humano, conteria embu- tida, como contrapartida recôndita, o que depois se chamou de a morte de Deus, ou seja, que a religião passa a ter cada vez menos relevância nas grandes decisões pessoais em países cada vez mais civilizados. O crente acha que a verdade é aquilo em que ele crê, ainda que a única verdade seja o que ele crê. Aliás, ele nem crê que crê: está convencido de que tudo é como ele imagina em sua crença que seja. Entre ele salvar a alma, que ele crê ter, e exercer a sua pró- pria liberdade crítica, prefere a salvação dita eterna, embora nunca tenha voltado da morte para garantir que haveria outra vida depois. Ele se ama tanto e se acha tão precioso que supõe merecer a eter- nidade. Não admite ser um ente finito. Desperdiça assim muito da única vida que tem. E estraga a vida de muitos outros. Quanto menos suas crenças resistem a argumentos, mais autoritário ele se torna e menos é capaz de escutar. Um deus único e todo poderoso se torna a projeção de uma mente prepotente e autoritária que, por sua vez, se sente legitimada e auratizada por aquilo que ela ajudou a criar e não sabe. Ortodoxia religiosa se contrapõe à liberdade, exceto se tiver o cinismo ou a pie- dade de achar que os outros não estarão salvos (como ele supõe estar). Na arquitetura do sistema kantiano, os sentidos são os servos que fornecem dados, os materiais brutos, para o entendimento, que já estão no nível da alma, como se fosse um senhor feudal, um Espírito Santo, enquanto a vontade se localiza na razão como um Deus Pai, um monarca. Onde fica a liberdade aí? Nesse sistema rígido, o belo precisa agradar sem conceito, porque o corpo não pensa: embora se aparente ter apreendido o momento de surpresa que há na vivência estética, será que não há já uma compreen- são do que se passa no espanto em que se fica? Como é que um servo pode de repente passar de peão a rainha, como num jogo de xadrez? Das muitas percepções inconscientes, as poucas que são conscientizadas ocorrem por um estado de exceção, por chamarem a atenção num julgamento que ocorreu no sujeito sem ele saber. O juízo sintético ocorre nas relações que o sujeito estabelece entre objetos que sejam semelhantes, próximos, causais ou oposi- cionais, mas também ocorre no próprio sujeito, de maneira que ele possa conjugar a sua vivência presente com experiências pretéritas de si mesmo e até antecipações que ele faz do que pretende. Além disso, ocorrem sínteses na própria percepção e avaliação incons- ciente. O inconsciente não é apenas “psíquico”: a maior parte dele é fisiológico. Arte e revelação 175