Pedras e Demônios pd53 | Page 176

o qual se funda toda a fé cristã; a parte das salas e dos quartos é ocupada pela vida da mente, pela programação conceitual, ou seja o Espírito Santo; o teto é a formatação do juízo, ou seja, cor- responde à Virgem Maria, aquela que torna concreta, torna carne, o que seria a vontade puramente espiritual do que representa o divino, enquanto o telhado que tudo cobre é a razão, que repre- senta a vontade do Deus Pai. Ou seja, deus não é apenas uma ideia da razão, a ser distinguida da crença em deus porque representaria o início e o fim de todas as coisas, portanto esconderia atrás de si a astronomia e a astrofísica, mas o divino cristão serve para estru- turar a própria mente. A mente que possa ser considerada humana só pode ser a mentalidade cristã, a que é feita em conformidade com a crença europeia dominante. Marx usou essa imagem de uma edificação para entender a relação entre cultura, sociedade e modo de produção. Este último seria a base, o alicerce, sobre o qual se construiria a estrutura social, que seriam como os quartos e salas da moradia, enquanto o telhado formaria a supraestrutura cultural. O termo que ele usa é “Bau”, uma construção, uma edificação, uma casa, o que se perdeu quando se traduziu isso por estrutura, que é antes o esqueleto da construção. Daí os termos “Unterbau” para os alicerces econômicos e “Ueberbau” para a expressão (Ausdruck) cultural deles. Temos de olhar de fora essa construção em que habitamos. Fácil é aí comparar as pessoas e dizer que umas parecem choupa- nas, outras taperas decadentes, outras construções populares, há uma classe média de construção e mansões de classe alta, assim como há palácios ideativos. A construção é, porém, algo rígido, uma casa não de morar, mas de pensar. Como ficam, porém, a liberdade e a inventividade dentro disso? Seriam a movimentação de quem aí habita, dentro do previsível? Constroem-se fundamentos, paredes, tetos e telhados para gerar vazios. Tudo o que se faz é aí feito para gerar um não-ser. Ele não é, porém, idêntico ao grande feito na ciência ou na arte que produz algo não igual ao já previsto. Ou seja, aquilo que mais distingue o homem não tem espaço na metáfora da edificação. Deus e liberdade Em 1809, Schelling argumentou que um ente todo poderoso e onisciente tornaria impossível a liberdade no homem, pois qualquer coisa que ele fizesse ou pensasse só seria possível com a aquies- cência divina. Ou se tem liberdade ou se tem um Deus assim. A insistência, no século XVIII, na ideia de liberdade como essência do 174 Flávio R. Kothe