o qual se funda toda a fé cristã; a parte das salas e dos quartos
é ocupada pela vida da mente, pela programação conceitual, ou
seja o Espírito Santo; o teto é a formatação do juízo, ou seja, cor-
responde à Virgem Maria, aquela que torna concreta, torna carne,
o que seria a vontade puramente espiritual do que representa o
divino, enquanto o telhado que tudo cobre é a razão, que repre-
senta a vontade do Deus Pai. Ou seja, deus não é apenas uma ideia
da razão, a ser distinguida da crença em deus porque representaria
o início e o fim de todas as coisas, portanto esconderia atrás de si
a astronomia e a astrofísica, mas o divino cristão serve para estru-
turar a própria mente. A mente que possa ser considerada humana
só pode ser a mentalidade cristã, a que é feita em conformidade
com a crença europeia dominante.
Marx usou essa imagem de uma edificação para entender a
relação entre cultura, sociedade e modo de produção. Este último
seria a base, o alicerce, sobre o qual se construiria a estrutura
social, que seriam como os quartos e salas da moradia, enquanto o
telhado formaria a supraestrutura cultural. O termo que ele usa é
“Bau”, uma construção, uma edificação, uma casa, o que se perdeu
quando se traduziu isso por estrutura, que é antes o esqueleto da
construção. Daí os termos “Unterbau” para os alicerces econômicos
e “Ueberbau” para a expressão (Ausdruck) cultural deles.
Temos de olhar de fora essa construção em que habitamos.
Fácil é aí comparar as pessoas e dizer que umas parecem choupa-
nas, outras taperas decadentes, outras construções populares, há
uma classe média de construção e mansões de classe alta, assim
como há palácios ideativos. A construção é, porém, algo rígido, uma
casa não de morar, mas de pensar. Como ficam, porém, a liberdade
e a inventividade dentro disso? Seriam a movimentação de quem aí
habita, dentro do previsível? Constroem-se fundamentos, paredes,
tetos e telhados para gerar vazios. Tudo o que se faz é aí feito para
gerar um não-ser. Ele não é, porém, idêntico ao grande feito na
ciência ou na arte que produz algo não igual ao já previsto. Ou seja,
aquilo que mais distingue o homem não tem espaço na metáfora da
edificação.
Deus e liberdade
Em 1809, Schelling argumentou que um ente todo poderoso e
onisciente tornaria impossível a liberdade no homem, pois qualquer
coisa que ele fizesse ou pensasse só seria possível com a aquies-
cência divina. Ou se tem liberdade ou se tem um Deus assim. A
insistência, no século XVIII, na ideia de liberdade como essência do
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Flávio R. Kothe