Pedras e Demônios pd53 | Page 175

Arquitetura do pensamento Quando os filósofos do século XVIII se puseram a desenvolver a “metafísica psicológica”, estavam fazendo algo sacrílego, ou seja, tentar decifrar o que seria a “alma” posta por Deus no homem, mas transpuseram as categorias teológicas para o âmbito da teoria do conhecimento. Eles procuravam a “arquitetura da mente” e tinham um plano “arquitetônico” em seus sistemas. Isso fica mais claro no “robô” construído por Kant na Crítica da razão pura. Ele tem sensores – os sentidos – que captam imagens dos fenômenos das coisas e que as levam ao “entendimento” (Verstand) que os organiza conforme os conceitos – é a programação de que é dotado, o que leva a decisões conforme os princípios volitivos da razão (Vernunft), mediada pelo juízo. Se em Descartes, nas Paixões da alma, paira a sugestão de que a “alma” se divide em três (eu diria quatro) partes – a intelecção sendo o equivalente ao Espírito Santo, o sentimento ao Cristo e a vontade ao Deus Pai, pode-se acrescentar a somatização dos movi- mentos psíquicos como equivalente à Virgem Maria, aquela que fez o espírito se tornar carne – essas mesmas categorias teológi- cas católicas se encontram em Kant, embora este tivesse um back- ground antes luterano do que católico. O “esquema” (no sentido mesmo de esquematismo da razão) da Crítica da razão pura pode ser visto na forma de uma pirâmide, em que a parte de baixo é for- mada pela multiplicidade caótica das percepções, o corpo, a “esté- tica transcendental”, a parte intermediária pelo sistema conceptual do entendimento (Verstand) e a parte superior pela razão com suas três ideias de Deus, liberdade e imortalidade. Ou seja, o que comanda tudo é a razão, portanto vista como transposição da figura de Deus Pai, o entendimento que é a inte- lecção das coisas seria a transposição do Espírito Santo, enquanto que aquele que carrega o que se sente, o estético, seria o equiva- lente a Cristo. Depois de apresentar esse tríptico, Kant lembra de colocar entre a segunda e a terceira instância a faculdade do juízo, que fica transpondo as ordens da razão para as atividades con- cretas, ou seja, é a Virgem Maria que reaparece, aquela que faz o espírito se tornar carne e decisão concreta, a mediação do divino com o humano. Kant usa explicitamente o termo “arquitetura” para designar a estrutura da mente. Se for tomada uma casa como modelo, pode-se supor também que os fundamentos são os dados fornecidos pelos sensores que são os sentidos, os fornecedores de matéria prima, o Cristo sobre Arte e revelação 173