Arquitetura do pensamento
Quando os filósofos do século XVIII se puseram a desenvolver
a “metafísica psicológica”, estavam fazendo algo sacrílego, ou seja,
tentar decifrar o que seria a “alma” posta por Deus no homem, mas
transpuseram as categorias teológicas para o âmbito da teoria do
conhecimento. Eles procuravam a “arquitetura da mente” e tinham
um plano “arquitetônico” em seus sistemas. Isso fica mais claro
no “robô” construído por Kant na Crítica da razão pura. Ele tem
sensores – os sentidos – que captam imagens dos fenômenos das
coisas e que as levam ao “entendimento” (Verstand) que os organiza
conforme os conceitos – é a programação de que é dotado, o que
leva a decisões conforme os princípios volitivos da razão (Vernunft),
mediada pelo juízo.
Se em Descartes, nas Paixões da alma, paira a sugestão de que
a “alma” se divide em três (eu diria quatro) partes – a intelecção
sendo o equivalente ao Espírito Santo, o sentimento ao Cristo e a
vontade ao Deus Pai, pode-se acrescentar a somatização dos movi-
mentos psíquicos como equivalente à Virgem Maria, aquela que
fez o espírito se tornar carne – essas mesmas categorias teológi-
cas católicas se encontram em Kant, embora este tivesse um back-
ground antes luterano do que católico. O “esquema” (no sentido
mesmo de esquematismo da razão) da Crítica da razão pura pode
ser visto na forma de uma pirâmide, em que a parte de baixo é for-
mada pela multiplicidade caótica das percepções, o corpo, a “esté-
tica transcendental”, a parte intermediária pelo sistema conceptual
do entendimento (Verstand) e a parte superior pela razão com suas
três ideias de Deus, liberdade e imortalidade.
Ou seja, o que comanda tudo é a razão, portanto vista como
transposição da figura de Deus Pai, o entendimento que é a inte-
lecção das coisas seria a transposição do Espírito Santo, enquanto
que aquele que carrega o que se sente, o estético, seria o equiva-
lente a Cristo. Depois de apresentar esse tríptico, Kant lembra de
colocar entre a segunda e a terceira instância a faculdade do juízo,
que fica transpondo as ordens da razão para as atividades con-
cretas, ou seja, é a Virgem Maria que reaparece, aquela que faz o
espírito se tornar carne e decisão concreta, a mediação do divino
com o humano. Kant usa explicitamente o termo “arquitetura” para
designar a estrutura da mente.
Se for tomada uma casa como modelo, pode-se supor também
que os fundamentos são os dados fornecidos pelos sensores que
são os sentidos, os fornecedores de matéria prima, o Cristo sobre
Arte e revelação
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