O problema central é discernir o cerne teológico que habita a
filosofia e a estética, fazendo dos pensadores antes teólogos dis-
farçados do que propriamente filósofos, caso se aceite a proposta
de Heidegger – que ele próprio não cumpriu plenamente – de que
a filosofia é ateia por natureza. Numa era de recrudescimento
do fanatismo religioso, este problema se torna mais premente. O
monoteísmo religioso tende a levar ao totalitarismo, pois quem só
admite um único deus verdadeiro, o seu, não tem tolerância quanto
à elevação de outras divindades. A saída não é a regressão ao polite-
ísmo antigo, mas se desvencilhar das religiões: “sem deuses mais”.
A distinção entre corpo e alma parecia fácil: o corpo seria uma
coisa com extensão, sendo, portanto, divisível; em contrapartida, a
alma seria o indivisível. Embora Descartes tenha adotado isso em
suas obras principais, nas Paixões da alma observou que a alma
também se divide: tem uma parte em que ela sente as coisas; outra
que entende as coisas e ainda uma que decide sobre as coisas.
Nos séculos XVII e XVIII não se tinha noção clara de que haveria o
inconsciente, embora Shakespeare tenha percebido isso. Para nós,
desde a psicanálise é natural que “a alma” se divida em consciente,
pré-consciente e inconsciente. Quando se dividem as coisas, deve-
ria chegar um momento em que elas não se poderiam dividir mais:
é o ponto matemático, cruzamento de duas linhas, que é sem estar
aí, é um não-ser que é e que funda tudo (ou afunda tudo no nada).
Tudo o que há se baseia num não estar que é.
Numa situação de guerra, sob canhoneio, um soldado se apa-
vora, fica pálido e quer se esconder, enquanto outro fica furioso,
vermelho de raiva e se dispõe a enfrentar o fogo do inimigo de
peito aberto. Para a mesma causa deveria haver as mesmas
consequências, e isso não ocorre. Se suas “almas” têm a mesma
origem divina, por que reagem de modo oposto? Cada “alma” capta
os dados do real, discerne a situação, provoca uma reação somática
e uma ação volitiva. Sofrer os dados equivale à figura de Cristo, que
corporifica o sofrimento; a intelecção dos dados é feita pelo enten-
dimento, que corresponde ao Espírito Santo, enquanto a expressão
divina da vontade é Deus Pai, que decide fazer e desfazer as coisas.
Há, porém, além dessa Santíssima Trindade, uma quarta figura,
aquela que faz com que o espírito somatize reações corpóreas e que
corresponde à figura da Virgem Maria, aquela que fez o espírito se
tornar carne e habitar entre humanos.
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Flávio R. Kothe