Pedras e Demônios pd53 | Page 174

O problema central é discernir o cerne teológico que habita a filosofia e a estética, fazendo dos pensadores antes teólogos dis- farçados do que propriamente filósofos, caso se aceite a proposta de Heidegger – que ele próprio não cumpriu plenamente – de que a filosofia é ateia por natureza. Numa era de recrudescimento do fanatismo religioso, este problema se torna mais premente. O monoteísmo religioso tende a levar ao totalitarismo, pois quem só admite um único deus verdadeiro, o seu, não tem tolerância quanto à elevação de outras divindades. A saída não é a regressão ao polite- ísmo antigo, mas se desvencilhar das religiões: “sem deuses mais”. A distinção entre corpo e alma parecia fácil: o corpo seria uma coisa com extensão, sendo, portanto, divisível; em contrapartida, a alma seria o indivisível. Embora Descartes tenha adotado isso em suas obras principais, nas Paixões da alma observou que a alma também se divide: tem uma parte em que ela sente as coisas; outra que entende as coisas e ainda uma que decide sobre as coisas. Nos séculos XVII e XVIII não se tinha noção clara de que haveria o inconsciente, embora Shakespeare tenha percebido isso. Para nós, desde a psicanálise é natural que “a alma” se divida em consciente, pré-consciente e inconsciente. Quando se dividem as coisas, deve- ria chegar um momento em que elas não se poderiam dividir mais: é o ponto matemático, cruzamento de duas linhas, que é sem estar aí, é um não-ser que é e que funda tudo (ou afunda tudo no nada). Tudo o que há se baseia num não estar que é. Numa situação de guerra, sob canhoneio, um soldado se apa- vora, fica pálido e quer se esconder, enquanto outro fica furioso, vermelho de raiva e se dispõe a enfrentar o fogo do inimigo de peito aberto. Para a mesma causa deveria haver as mesmas consequências, e isso não ocorre. Se suas “almas” têm a mesma origem divina, por que reagem de modo oposto? Cada “alma” capta os dados do real, discerne a situação, provoca uma reação somática e uma ação volitiva. Sofrer os dados equivale à figura de Cristo, que corporifica o sofrimento; a intelecção dos dados é feita pelo enten- dimento, que corresponde ao Espírito Santo, enquanto a expressão divina da vontade é Deus Pai, que decide fazer e desfazer as coisas. Há, porém, além dessa Santíssima Trindade, uma quarta figura, aquela que faz com que o espírito somatize reações corpóreas e que corresponde à figura da Virgem Maria, aquela que fez o espírito se tornar carne e habitar entre humanos. 172 Flávio R. Kothe