Pedras e Demônios pd53 | Page 167

nômico e social do Brasil. Mas são claramente insuficientes para promover um efetivo desenvolvimento da Região e uma rápida e consistente convergência econômica e social com as outras regiões brasileiras. Além de continuar dependente destes instrumentos compensatórios depois de tantos anos, o Nordeste tem se limitado a acompanhar, à distância, o desempenho da economia e dos indica- dores sociais do Brasil. Pelo menos no que se refere à transferência de renda, quase continua válido o que Celso Furtado escreveu, há 60 anos, no diagnóstico do GTDN – Uma Política de Desenvolvimento Econômico para o Nordeste (documento orientador da criação da Sudene): “por seu caráter assistencial (transferências do governo federal para o Nordeste), são gastos que quase nenhum efeito têm na estrutura econômica e na capacidade de produção do sistema. Por outro lado, os recursos que saem da região constituem, em sua maior parte, capitais em busca de colocação. Se lá permanecessem (no Nordeste), esses capitais iriam criar capacidade produtiva, ele- var o nível médio de produtividade, absorver parte do excedente populacional, elevar, enfim, o nível de vida da população nordes- tina” (Furtado, 2009, p. 106). O programa Bolsa Família beneficia pouco mais de seis milhões de famílias do Nordeste, o que representa cerca de 51% de todos os beneficiários do Brasil (dado de 2015), quando a população nordes- tina equivale a menos de 28% dos brasileiros. E o BPC-Benefício de Prestação Continuada distribuiu cerca de 35,6% do total nacional no Nordeste. Em 2013, os três programas sociais (Bolsa Família, Benefício de Prestação Continuada – BPC e Renda Mínima Vitalícia – RMV) distribuíram R$ 23,43 bilhões de reais no Nordeste, mais do dobro do crédito do FNE às empresas nordestinas (Monteiro Neto, 2017) e pouco mais do financiamento do BNDES no Nordeste, alta- mente concentrado em alguns grandes empreendimentos produ- tivos, como a Refinaria Abreu e Lima (em 2013, o financiamento do BNDES chegou a R$ 21,73 bilhões). De acordo com Monteiro Neto, a “novidade da última década, entretanto, está ligada ao nível estabelecido pelo gasto social em transferências de renda a famílias (PBF, BPC e RMV), que se tornou superior ao financiamento do empreendimento produtivo da política regional e até mesmo riva- lizou com o crédito ao investimento do próprio BNDES, como foi o caso em 2013, quando PBF + BPC + RMV atingiram 3,8% do PIB nordestino. No mesmo ano, o BNDES desembolsou fração similar do PIB regional para o investimento empresarial”. O Nordeste mudou, mas continua no mesmo lugar 165