Pedras e Demônios pd53 | Page 168

Embora tenha o impacto reduzido pela baixa competitividade sistêmica e pela deficiente produtividade das atividades produtivas, o crédito subsidiado do FNE estimula o investimento e a produção. A transferência de renda pode até contribuir para a economia pelo efeito da demanda por bens-salários, mas, sendo um fluxo (e não um ativo que gera um fluxo de renda), continuará sempre depen- dente da continuidade da fonte geradora externa. Por isso, embora seja muito justo, considerando a vulnerabilidade social das famí- lias nordestinas, constitui uma desproporção que as transferências de renda representem mais do dobro do financiamento do FNE. 2. O grande desafio O grande estrangulamento do Nordeste é a enorme defasagem de competitividade sistêmica da região em relação à média nacio- nal, causa estrutural do atraso e da persistência da desigualdade regional. A este estrangulamento se associa a baixa produtividade das atividades produtivas, agravando a defasagem regional e a incapacidade da região de competir no mercado nacional e inter- nacional. Enquanto o Nordeste se mantiver com nível baixo de competitividade sistêmica, comparado com as outras regiões do Brasil, os incentivos fiscais e os subsídios creditícios e as políticas de transferência de renda vão conseguir, no máximo, que a região acompanhe o ritmo econômico e a melhoria dos indicadores sociais do país. O desenvolvimento do Nordeste, com a rápida redução da sua dependência de incentivos e de transferências, será possível apenas quando a competitividade sistêmica da região se aproxime da média nacional e das regiões mais desenvolvidas. O gráfico 1 mostra a classificação da competitividade dos esta- dos do Nordeste (estudo do Centro de Liderança Pública), eviden- ciando a notável desvantagem da região em comparação com o Sul, o Sudeste e mesmo o Centro-Oeste. Os estados destas regiões têm alta competitividade, enquanto todos os estados do Nordeste estão no intervalo de baixa competitividade (apenas Pernambuco, primeiro do Nordeste, está um pouco acima da média do Brasil - 50,2) 1 . 1 O estudo do Centro de Liderança Pública / The Economist-Inteligence Unit com- bina um conjunto de 10 pilares (incluindo educação, capital humano, inovação e infraestrutura), desdobrados em 73 indicadores que expressam o diferencial de competitividade dos estados. 166 Sérgio C. Buarque