Pedras e Demônios pd53 | Page 150

Iglesias recorre a Albert Hirschman, neste brilhante e ainda atual ensaio: “um dos principais erros cometidos pelos latino-ame- ricanos consistiu em pedir aos governos mais do que eles podiam fazer. Ao mesmo tempo, a capacidade discriminatória da interven- ção do Estado, unida ao poder acumulado por grupos de pressão em sociedades em pleno processo de desenvolvimento e articulação interna, conduz ao paradoxo de que muitas politicas aplicadas em nome de setores mais pobres terminaram beneficiando grupo de renda mais alta e os próprios burocratas”. Em nome do social, de sua intocabilidade e, às vezes, sacrali- dade, muitos erros foram cometidos e muitos recursos desperdiça- dos e desviados dos seus reais e necessitados beneficiários. No Brasil, a política social, criada a partir dos anos 30, ainda guarda resíduos que urge serem superados, resíduos marcados fortemente pelo clientelismo, fisiologismo, primeiro-damismo, des- continuidade, pulverização, fragmentação e sobretudo falta de uma perspectiva universalista geradora de injustiças e discriminação para não dizer também de discricionariedade. As políticas sociais estiveram permanentemente desarticula- das das políticas macroeconômicas; observa-se nelas uma notável descontinuidade e se caracterizam por uma escassa relação entre seus componentes. Os marcos institucionais são rígidos e marca- dos por interesses corporativos; os recursos disponíveis para fins sociais se encontram vinculados a programas preexistentes, com uma tipificação inflexível muitas vezes de costas ou na contramão das demandas reais, crivadas pelas diferenças regionais e tamanha diversidade em um país de dimensões continentais como o Brasil. Impostergável que uma proposta concreta, robusta na área social, particularmente na área da assistência social, adquira velo- cidade, adesão de significativos atores no campo social, econômico e político e tenha capacidade de sobrepujar o “velho” e “indesejá- vel”, tendo como horizonte a emancipação e a dignidade dos exclu- ídos e a superação da pobreza. Produzir novos consensos e um novo padrão de coesão em rela- ção aos desafios da assistência é o principal desafio. Talvez seja preciso se inspirar no padrão/experiência de consenso formatado em 1993 entre a sociedade civil, o mundo acadêmico, os gestores sociais, as entidades filantrópicas, os movimentos sociais, o governo e o Congresso Nacional, que permitiu a criação da Lei Orgânica da Assistência Social, sancionada pelo presidente Itamar Franco, em 7 de dezembro de 1993. 148 Denise Paiva