Pedras e Demônios pd53 | Page 134

objetivos que nunca foram propriamente explicados ou debatidos. Basta lembrar da “radicalidade democrática”, que foi sumindo len- tamente do mapa conceitual do partido. Faz-se mister, portanto, na presente conjuntura e com o novo nome do partido, debater a cidadania e os direitos a ela vinculados, de forma a criar uma identidade do Cidadania junto ao público. Interessante assinalar que os diferentes direitos ligados à cidadania acolhem e transcendem as ideias das principais correntes políticas da história moderna: o liberalismo, por um lado, e o socialismo, por outro lado. Os direitos civis e políticos são, por assim dizer, os pontos mais fortes da tradição liberal; o pensamento socialista, por sua vez, historicamente sempre deu maior atenção para as ques- tões socioeconômicas, assim como a nova esquerda enfatiza mais os direitos ligados à identidade. Neste sentido, existe um paradoxo que será preciso enfrentar: significaria então que, para um partido como o Cidadania, não há mais razão em posicionar-se à esquerda do espectro político, já que a luta pelos direitos de cidadania transcenderia as tradicionais dicotomias liberalismo-socialismo e esquerda-direita? Aqui deve- mos lembrar que a história do antecessor do Cidadania, o PPS, e mesmo a do antigo PCB que antecedeu a este último, demonstrava claramente um esforço por incorporar em seu ideário a democra- cia como valor universal e, sendo assim, mesmo sem explicitá-lo, estava incorporando partes do ideário liberal a partir de uma pers- pectiva de esquerda. Por este motivo, o Cidadania não pode deixar de apresentar-se como um partido pertencente a uma esquerda específica, a esquerda democrática. Se é verdade que o Brasil necessita avançar em todos os tipos de direitos de cidadania, não se pode negar, por outro lado, que é na área dos direitos sociais que o país evoluiu menos. Desde a redemocratização, houve avanços significativos na área dos direitos civis e políticos, com a Constituição de 1988 e o desenho institucio- nal da federação daí advindo. Já a área dos direitos sociais parece constituir a que mais necessita de atenção no presente momento. A pobreza, o desemprego, os baixos salários da maior parte da população e a precária organização dos serviços públicos limitam o avanço em todas as áreas da cidadania, já que direitos civis, políti- cos e sociais estão interligados. A precarização dos direitos sociais parece um fenômeno con- temporâneo que veio para ficar. Claro, apresenta diferentes graus dependendo de que países ou regiões estamos falando, mas está intimamente ligada a uma tendência da economia: a velocidade das 132 Paulo César Nascimento