Pedras e Demônios pd53 | Page 135

mudanças. Aliás, se tivéssemos de escolher uma palavra para defi- nir o mundo contemporâneo, provavelmente a velocidade seria a escolha ideal. A necessidade de as empresas sobreviverem em um mercado mundial cada vez mais competitivo, o consumismo desenfreado que exige a oferta contínua de novos produtos, a busca de lucros cada vez maiores, impõem não só na economia, mas em todas as áreas da sociedade, um ritmo frenético de mudanças que deses- tabilizam as instituições da sociedade e a vida dos cidadãos. É o caso também das redes sociais, que se baseiam na velocidade de contínuas informações novas que, pelo seu ritmo, são incapazes de serem analisadas e verificadas. Empregos, planos de saúde, educação, transporte, tudo torna-se precário e instável. A constante renovação tecnológica, a introdu- ção da robótica e o emprego de inteligência artificial, tudo em prol do “desenvolvimento econômico” do país, têm causado uma limita- ção dramática do mercado de trabalho e a redução da mão de obra. Surge o conceito de jobless growth, o crescimento econômico que não é capaz de ampliar o mercado de trabalho significativamente. Dada esta realidade, um partido que se apresenta como defen- sor da cidadania deve elaborar uma nova perspectiva de desenvol- vimento, menos veloz, mais estável, humana e sustentável, e tam- bém menos consumista. E avaliar o processo de globalização – que nada mais é do que a expansão dessa lógica de desenvolvimento veloz e predatório a nível mundial – com um olhar mais crítico e menos ingênuo. E, finalmente, é preciso enfrentar um outro paradoxo de origem interna: um partido que luta pelo aprofundamento da democra- cia e da cidadania não pode deixar de levar esta mesma perspec- tiva para sua estrutura interna, sob o risco de contradizer-se. Por isso é preciso desenvolver mecanismos de rotatividade na direção e mudar o viciado sistema de escolha de delegados via diretórios. Tal- vez o estabelecimento de algum tipo de eleições primárias ajudaria a militância a se sentir mais participante dos destinos do partido. Apesar de ter empregado o termo “cidadania plena”, seguindo T. Marshall, a verdade é que este é um conceito que estará sempre em aberto, sujeito a mudanças e evoluções, de acordo com o zeitgeist – o espírito de cada época. Neste sentido, o novo partido Cidadania terá o desafio de enfrentar os atuais paradoxos envolvendo a luta pelo apro- fundamento dos direitos dos cidadãos e também manter-se aberto a novas perspectivas de cidadania que inevitavelmente irão surgir. Do PPS ao Cidadania: paradoxos e desafios 133