mudanças. Aliás, se tivéssemos de escolher uma palavra para defi-
nir o mundo contemporâneo, provavelmente a velocidade seria a
escolha ideal.
A necessidade de as empresas sobreviverem em um mercado
mundial cada vez mais competitivo, o consumismo desenfreado
que exige a oferta contínua de novos produtos, a busca de lucros
cada vez maiores, impõem não só na economia, mas em todas as
áreas da sociedade, um ritmo frenético de mudanças que deses-
tabilizam as instituições da sociedade e a vida dos cidadãos. É o
caso também das redes sociais, que se baseiam na velocidade de
contínuas informações novas que, pelo seu ritmo, são incapazes de
serem analisadas e verificadas.
Empregos, planos de saúde, educação, transporte, tudo torna-se
precário e instável. A constante renovação tecnológica, a introdu-
ção da robótica e o emprego de inteligência artificial, tudo em prol
do “desenvolvimento econômico” do país, têm causado uma limita-
ção dramática do mercado de trabalho e a redução da mão de obra.
Surge o conceito de jobless growth, o crescimento econômico que
não é capaz de ampliar o mercado de trabalho significativamente.
Dada esta realidade, um partido que se apresenta como defen-
sor da cidadania deve elaborar uma nova perspectiva de desenvol-
vimento, menos veloz, mais estável, humana e sustentável, e tam-
bém menos consumista. E avaliar o processo de globalização – que
nada mais é do que a expansão dessa lógica de desenvolvimento
veloz e predatório a nível mundial – com um olhar mais crítico e
menos ingênuo.
E, finalmente, é preciso enfrentar um outro paradoxo de origem
interna: um partido que luta pelo aprofundamento da democra-
cia e da cidadania não pode deixar de levar esta mesma perspec-
tiva para sua estrutura interna, sob o risco de contradizer-se. Por
isso é preciso desenvolver mecanismos de rotatividade na direção e
mudar o viciado sistema de escolha de delegados via diretórios. Tal-
vez o estabelecimento de algum tipo de eleições primárias ajudaria
a militância a se sentir mais participante dos destinos do partido.
Apesar de ter empregado o termo “cidadania plena”, seguindo T.
Marshall, a verdade é que este é um conceito que estará sempre em
aberto, sujeito a mudanças e evoluções, de acordo com o zeitgeist – o
espírito de cada época. Neste sentido, o novo partido Cidadania terá o
desafio de enfrentar os atuais paradoxos envolvendo a luta pelo apro-
fundamento dos direitos dos cidadãos e também manter-se aberto a
novas perspectivas de cidadania que inevitavelmente irão surgir.
Do PPS ao Cidadania: paradoxos e desafios
133