Pedras e Demônios pd53 | Page 133

Contudo, manteve a escravidão e nada avançou em direitos sociais. Em 1881, entretanto, o voto do analfabeto é proibido, restringindo a cidadania política; em 1889, a escravidão é finalmente abolida, o que, se significou algum avanço em direitos civis, em nada melho- rou os direitos políticos e sociais dos recém-libertos; na década de 30 do século passado, com Getúlio Vargas, os direitos sociais avan- çaram em relação aos civis e políticos. Já em 1964, com a ditadura militar, os direitos políticos dos cidadãos foram castrados, mas recuperados em parte pela Constituição de 1988, apesar de haver uma imensa distância no país entre a lei escrita e a realidade. Estes avanços e retrocessos mostram que o Brasil está longe de ter alcançado uma cidadania plena, principalmente na área dos direitos sociais. Permeando todos estes problemas está a falta de um sistema educacional eficiente, o que compromete todas as dimensões da cidadania – a civil, a política, a social e a identitária. Dado esse quadro de deficiência dos direitos dos cidadãos bra- sileiros e de incerteza sobre como aprofundar estes direitos, o par- tido que optou por denominar-se Cidadania, como fez o PPS em seu congresso extraordinário de março de 2019, terá certamente que enfrentar vários paradoxos e desafios. Um destes paradoxos reside no fato de que se a democracia moderna, diferentemente da democracia elitista do mundo clássico, garante direitos políticos a todos os cidadãos adultos da nação, seu caráter representativo desestimula a participação política, que se concentra fundamentalmente na atuação dos partidos no Con- gresso Nacional. A atuação política na sociedade recebe bem menos atenção, exceto em períodos eleitorais. Além disso, as exigências para que um partido tenha plena vida legal no legislativo incentivam ainda mais o foco nas eleições. Não somente o PPS, mas os partidos em geral, eram e são obrigados a eleger ou acolher um número suficiente de representantes para ultrapassar a cláusula de barreira e evitar a perda do fundo par- tidário. Com isso, os partidos tendem a afrouxar as exigências de filiação, o que permite a entrada de políticos mais preocupados em encontrar um nicho para se eleger ou se reeleger, do que participar de um projeto político de longo prazo para o país. O Cidadania deve se tornar um partido mais consistente, atrair quadros e políticos que estejam comprometidos com a luta pelo aprofundamento dos direitos dos cidadãos e cidadãs. Para isso, é preciso desenvolver uma clara identidade partidária, algo que o PPS teve dificuldade em construir. Lançava conceitos e anunciava Do PPS ao Cidadania: paradoxos e desafios 131