Pedras e Demônios pd53 | Page 131

Do PPS ao Cidadania: paradoxos e desafios Paulo César Nascimento A o mudar seu nome, o PPS deu um passo decisivo para resga- tar uma tradição muito antiga da política: a cidadania. Polí- tica e cidadania, embora não sejam a mesma coisa, estão intrinsecamente ligadas, remontando ambas a uma das mais signi- ficativas experiências humanas – o surgimento da pólis grega. Foi na Atenas clássica que o conceito de cidadania primeiro se desenvolveu. Aristóteles, no livro III da Política, já indaga o que é a cidade e o que é o cidadão. Define cidade não pelos seus muros e construções, mas pelo sentimento coletivo que congrega aqueles que a habitam. Mas como escolher, entre os que habitam a pólis, quem pode ser cidadão? Aristóteles passa a descrever diferentes critérios – quem é filho de pai e mãe ateniense, quem tem resi- dência fixa na cidade etc. Mas opta, finalmente, por definir cida- dão aquele que pode “exercer magistraturas”, ou cargos e funções públicas, vinculando dessa forma o conceito de cidadania com o exercício da política. Claro está que a definição aristotélica de cidadania era extrema- mente limitada: excluía mulheres, escravos e pobres. Estes últimos eram excluídos porque, ao trabalharem para sobreviver, estavam pre- sos ao “reino da necessidade”, e sendo assim, se exercessem funções públicas, certamente as usariam para contemplar suas necessida- des econômicas particulares. Mas Aristóteles também era contra que comerciantes e financistas exercessem cargos públicos, porque, ao privilegiarem o lucro, usariam a política para obter vantagens para si. O conceito de cidadania no mundo antigo, dessa forma, tem sua origem no urbano – a pólis grega ou a civitas romana, já que o mundo rural era muito disperso e particularista para gerar a ação coletiva exigida pela política. E a cidadania era um conceito vinculado ao exercício político de uma elite, os aristoi ou melho- res – aqueles capazes de transcender as necessidades econômicas particulares e preocupar-se com o bem público. Essa concepção de cidadania ainda irá informar as cidades-estados italianas na época do Renascimento, como é o caso da república florentina de Maquiavel, mas perde força com o risorgimento e a consolidação do Estado-nação moderno na Europa. Do PPS ao Cidadania: paradoxos e desafios 129