Pedras e Demônios pd53 | Page 128

através de intervenções tópicas de engenharia de tráfego no fluxo do trânsito (sincronização de semáforos, mudança de sentido de ruas, desvios de tráfego, proibição de estacionamento etc.). Como é sabido e sentido pelos cidadãos no seu cotidiano, estas intervenções mitigadoras apenas aliviam a fluidez de determinados gargalos de tráfego, não constituindo soluções duradouras para os congestionamentos recorrentes. A gravidade do problema requer mudança de paradigma. A ins- tituição de pedágio urbano, por exemplo, passa a ser uma opção à ortodoxia da engenharia viária. Com efeito, a solução de longo prazo para a mobilidade urbana já é conhecida: dar absoluta prioridade aos modais sustentáveis, transporte público, bicicleta e andar a pé. Isso implica em desin- centivar o uso de automóvel como modal preferencial. O pedágio urbano (“congestion charging”, “urban toll” ou “con- gestion pricing”) é uma maneira de promover esse desestímulo. O mecanismo consiste em cobrar uma tarifa aos condutores de veícu- los que circulem em determinadas áreas da cidade (semelhante ao modelo de cobrança de pedágio nas rodovias concessionadas). Em geral, os veículos coletivos ficam isentos de pagamento. A ideia por trás da instituição da tarifa é a de que a imobili- dade urbana é causada em larga escala pelo maior demandante do espaço viário e maior gerador de tráfego: o transporte motori- zado individual. Seu uso desenfreado acarreta prejuízos materiais, sociais, ambientais e de saúde, e são injustamente socializados. Portanto, este transporte tem que ser parte da solução do problema. É uma questão de desequilíbrio entre oferta limitada do espaço viário e excesso de demanda pelo seu uso, protagonizado pelo auto- móvel. O preço (a tarifa do pedágio) vai ajudar a desestimular a demanda. O pedágio urbano, além de reduzir a quantidade de automó- veis circulando na malha viária, tem uma vantagem adicional: gera receitas para serem aplicadas em sustentabilidade urbana, parti- cularmente em transportes coletivos. Daí existir entre os especia- listas visível preferência por essa modalidade vis-à-vis o rodízio de automóveis. O rodízio (adotado em São Paulo e em outras grandes cida- des como México, Santiago, Bogotá, Quito, Pequim, Atenas) busca 126 Mauricio Costa Romão