Uma análise do problema das funções ou até da perda de fun-
ções dos partidos políticos só será possível se já tivermos desenvol-
vido uma posição sobre qual poderia ser a descrição funcional ideal
dos partidos políticos.
É evidente a perda de força de representação dos partidos polí-
ticos, nos últimos 25 anos. A composição social dos partidos não
reflete mais a estrutura social da população, dado que determi-
nadas camadas sociais, categorias salariais e profissionais estão
manifestamente sobrerrepresentadas. Sintomas dessa perda são
a queda contínua na participação nas eleições, diminuição do
número de filiados, menor participação de alguns grupos nos pro-
cessos de formação da vontade (e opinião), além de perda de con-
fiança e reputação de partidos e políticos junto ao público em geral.
Da mesma forma, também está em declínio a importância de sin-
dicatos, igrejas ou associações, ou seja, as instituições tradicionais
que transmitiam normas e davam orientação às pessoas.
Paralelamente, os partidos políticos apresentam cada vez menos
propostas de orientação concorrentes. Em vez disso, a concorrên-
cia partidária gira em torno de pessoas, alianças ou coalizões e
questões pontuais, e as diferenças entre os partidos também estão
ficando menores. A atenção da mídia está igualmente mais voltada
para pessoas e constelações de poder e menos preocupada com
posições. Questões ligadas a posições e/ou conteúdos que possam
contribuir para a polarização política são cada vez mais relegadas
ao segundo plano, representando, hoje, a exceção. A concorrência
entre os partidos está limitada principalmente a questões ligadas a
números. Por exemplo, trata-se apenas do valor do salário mínimo
e não mais da questão do salário mínimo propriamente dita.
Além disso, vigora uma forte reticência, para não dizer aversão,
a controvérsias políticas. Cada vez menos, a política é percebida
como disputa em torno de conceitos diferentes, mas é desde o início
vista como moderação. O compromisso não se dá mais no fim da
discussão política, mas marca seu início, por medo de ser punido
pelo partido por defender uma posição minoritária, ou por medo de
que qualquer forma de conteúdo anômalo ou mais audacioso possa
abrir um flanco ao ataque midiático ou afugentar os eleitores. Por
fim, a fragmentação do espaço da mídia, impulsionada pela digita-
lização, faz com que não haja um confronto visível entre as posições
que, simplesmente, ficam isoladas em universos digitais paralelos.
Com respeito a sua função decisória, os partidos políticos
enfrentam um problema de fundo, pois, apesar da maior necessi-
Os partidos políticos e sua função normativa
121