Pedras e Demônios pd53 | Página 123

Uma análise do problema das funções ou até da perda de fun- ções dos partidos políticos só será possível se já tivermos desenvol- vido uma posição sobre qual poderia ser a descrição funcional ideal dos partidos políticos. É evidente a perda de força de representação dos partidos polí- ticos, nos últimos 25 anos. A composição social dos partidos não reflete mais a estrutura social da população, dado que determi- nadas camadas sociais, categorias salariais e profissionais estão manifestamente sobrerrepresentadas. Sintomas dessa perda são a queda contínua na participação nas eleições, diminuição do número de filiados, menor participação de alguns grupos nos pro- cessos de formação da vontade (e opinião), além de perda de con- fiança e reputação de partidos e políticos junto ao público em geral. Da mesma forma, também está em declínio a importância de sin- dicatos, igrejas ou associações, ou seja, as instituições tradicionais que transmitiam normas e davam orientação às pessoas. Paralelamente, os partidos políticos apresentam cada vez menos propostas de orientação concorrentes. Em vez disso, a concorrên- cia partidária gira em torno de pessoas, alianças ou coalizões e questões pontuais, e as diferenças entre os partidos também estão ficando menores. A atenção da mídia está igualmente mais voltada para pessoas e constelações de poder e menos preocupada com posições. Questões ligadas a posições e/ou conteúdos que possam contribuir para a polarização política são cada vez mais relegadas ao segundo plano, representando, hoje, a exceção. A concorrência entre os partidos está limitada principalmente a questões ligadas a números. Por exemplo, trata-se apenas do valor do salário mínimo e não mais da questão do salário mínimo propriamente dita. Além disso, vigora uma forte reticência, para não dizer aversão, a controvérsias políticas. Cada vez menos, a política é percebida como disputa em torno de conceitos diferentes, mas é desde o início vista como moderação. O compromisso não se dá mais no fim da discussão política, mas marca seu início, por medo de ser punido pelo partido por defender uma posição minoritária, ou por medo de que qualquer forma de conteúdo anômalo ou mais audacioso possa abrir um flanco ao ataque midiático ou afugentar os eleitores. Por fim, a fragmentação do espaço da mídia, impulsionada pela digita- lização, faz com que não haja um confronto visível entre as posições que, simplesmente, ficam isoladas em universos digitais paralelos. Com respeito a sua função decisória, os partidos políticos enfrentam um problema de fundo, pois, apesar da maior necessi- Os partidos políticos e sua função normativa 121