Pedras e Demônios pd53 | Page 122

Em hipótese alguma isso implica que deixamos de esperar de cada cidadão que se considere sujeito da democracia. Deixar-se representar é exigente e exaustivo. Delegar significa ocupar-se da matéria; formar sua própria opinião leva tempo e requer análise e/ou discussão. Votar é muito mais do que simplesmente aper- tar uma tecla na urna eletrônica. E a representação só produzirá mais-valia se usufruir da atenção pública em um espaço de delibe- ração aberto a todos. Então, seria errado reduzir os partidos ao per- fil clássico de partidos programáticos. A perspectiva político-parti- dária transparece no interesse comum, ou bem comum, quando trata de conceitos concretos relativamente a diversas áreas temá- ticas (partido baseado em conceitos), quando desenvolve e executa projetos concretos com limitação temporal (partido baseado em projetos) e quando tem representantes ou lideranças que personifi- cam posições e defendem uma determinada proposta de orientação social (partido baseado em pessoas). A quintessência da ideia de partido político vive, porém, da dis- cussão e revisão periódica dos seus princípios e das suas respec- tivas interpretações do interesse comum, a fim de satisfazer a sua função central. Por essa razão, é um erro fatal julgar debates de fundo e trabalho em prol apenas do programa de base ou até con- siderá-los como fatores que atrapalham. Pois é exatamente nesse exercício que se decide, no fim das contas, se um partido é capaz de mostrar uma orientação para a sociedade e oferecer uma opção, alternando o olhar entre concretização de concepções e projetos. Falar em um desenvolvimento “pós-ideológico” da sociedade, no qual é impossível descrever alternativas fundamentais é, no mínimo, sinal de preguiça mental. Não há motivo para saudosismo da constelação ideológica antiga. E quem não entender os desafios dramáticos da atualidade como um convite analítico e normativo, que exige respostas norteadoras, não captou o espírito da coisa. Está fadada ao fracasso uma resposta meramente “pragmática” como reação à antimodernidade agressiva dos nossos tempos, à perda de democracia em uma economia globalizada, ao acirra- mento da clivagem social, aos movimentos globais de refugiados ou à destruição do nosso meio ambiente. A fim de afirmar nossa convicção de liberdade, igualdade e democracia, devemos, antes de mais nada, nos certificarmos de nós mesmos: qual é o funda- mento da nossa pretensão de verdade em uma era moderna refle- xiva? Qual é a nossa noção de liberalidade e nossa reivindicação à participação social e democrática? Qual é a nossa visão política de economia inclusiva e verde? 120 Peter Siller