Em hipótese alguma isso implica que deixamos de esperar de
cada cidadão que se considere sujeito da democracia. Deixar-se
representar é exigente e exaustivo. Delegar significa ocupar-se da
matéria; formar sua própria opinião leva tempo e requer análise
e/ou discussão. Votar é muito mais do que simplesmente aper-
tar uma tecla na urna eletrônica. E a representação só produzirá
mais-valia se usufruir da atenção pública em um espaço de delibe-
ração aberto a todos. Então, seria errado reduzir os partidos ao per-
fil clássico de partidos programáticos. A perspectiva político-parti-
dária transparece no interesse comum, ou bem comum, quando
trata de conceitos concretos relativamente a diversas áreas temá-
ticas (partido baseado em conceitos), quando desenvolve e executa
projetos concretos com limitação temporal (partido baseado em
projetos) e quando tem representantes ou lideranças que personifi-
cam posições e defendem uma determinada proposta de orientação
social (partido baseado em pessoas).
A quintessência da ideia de partido político vive, porém, da dis-
cussão e revisão periódica dos seus princípios e das suas respec-
tivas interpretações do interesse comum, a fim de satisfazer a sua
função central. Por essa razão, é um erro fatal julgar debates de
fundo e trabalho em prol apenas do programa de base ou até con-
siderá-los como fatores que atrapalham. Pois é exatamente nesse
exercício que se decide, no fim das contas, se um partido é capaz
de mostrar uma orientação para a sociedade e oferecer uma opção,
alternando o olhar entre concretização de concepções e projetos.
Falar em um desenvolvimento “pós-ideológico” da sociedade,
no qual é impossível descrever alternativas fundamentais é, no
mínimo, sinal de preguiça mental. Não há motivo para saudosismo
da constelação ideológica antiga. E quem não entender os desafios
dramáticos da atualidade como um convite analítico e normativo,
que exige respostas norteadoras, não captou o espírito da coisa.
Está fadada ao fracasso uma resposta meramente “pragmática”
como reação à antimodernidade agressiva dos nossos tempos, à
perda de democracia em uma economia globalizada, ao acirra-
mento da clivagem social, aos movimentos globais de refugiados
ou à destruição do nosso meio ambiente. A fim de afirmar nossa
convicção de liberdade, igualdade e democracia, devemos, antes
de mais nada, nos certificarmos de nós mesmos: qual é o funda-
mento da nossa pretensão de verdade em uma era moderna refle-
xiva? Qual é a nossa noção de liberalidade e nossa reivindicação à
participação social e democrática? Qual é a nossa visão política de
economia inclusiva e verde?
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Peter Siller