Pedras e Demônios pd53 | Page 121

Por isso, os partidos políticos distinguem-se categoricamente de protagonistas da representação de interesses e organizações que limitam sua pretensão de generalização a um único tema, sem envidar esforços para englobar outras áreas sociais. Isto posto, os partidos assumem quatro funções na nossa democracia: primeiro, uma função norteadora, ao defenderem con- ceitos específicos do interesse comum descritos em concepções e propostas de atuação concretas; segundo, uma função discursiva, ao introduzirem essas posições em discursos sociais e institucio- nalizados; terceiro, uma função decisória, ao participarem do pro- cesso de decisão democrático-legislativo. Estas três funções estão estreitamente associadas a uma quarta função, qual seja, a função representativa. A ideia e a missão por trás da instituição “partido político” só podem ser captadas quando entendemos a importância democrá- tica da representação intacta em todas as três funções. No entanto, a pré-condição essencial para poder cumprir essa função é ter tempo, uma vez que a qualidade das muitas decisões que precisa- mos tomar nas sociedades modernas depende, em grande medida, do tempo disponível para ponderar cada caso. Não obstante, o tempo é sempre um bem escasso nas democra- cias. Discussões e debates desembocam em decisões (no mínimo provisórias), sendo impulsionadas exatamente por isso. Desse caráter finito e temporal dos processos democráticos deduzimos a importância fundamental dos compromissos para a democracia. Como ideal regulador, o processo de se chegar a um acordo é um propulsor imprescindível, mas raramente consegue ser posto em prática. Apesar da importância da disputa em prol de uma política temporal justa, o tempo dos cidadãos é igualmente limitado. Mesmo no futuro será assim: os cidadãos terão disponibilidade de tempo diferentes à sua disposição e as aproveitarão de forma diversa. Apesar das profecias pessimistas do “fim da política representa- tiva”, a representação justa é mais importante do que nunca, sobre- tudo devido à nítida expansão espacial e temporal do horizonte de decisão da política com a globalização. Precisamos, portanto, de uma nova reflexão e de uma nova prática acerca dos mecanismos da representação legítima, a fim de dar novo ímpeto aos partidos. Em vez de nos despedirmos da noção de representação, deveríamos nos indagar como podemos melhorar a função representativa dos partidos. Os partidos políticos e sua função normativa 119