Pedras e Demônios pd53 | Seite 120

enraizadas nos interesses do respectivo meio socioeconômico. Con- siderando a controvérsia em torno do interesse comum, a demo- cracia é, portanto, sempre um processo permanente de autoes- clarecimento sobre a diferença entre interesse próprio sublime e generalização (sem desconsiderar os interesses próprios). A democracia não é nem a mera luta entre interesses opostos nem o meio para impor um interesse comum existente a priori. O anseio antidemocrático por um “governante esclarecido” persiste hoje na esperança da tecnocracia. Isto não significa que tenhamos de abdicar das pretensões de verdade, seja perante os inimigos da democracia, seja no discurso democrático, tendo em vista preten- sões discursivas engessadas de exatidão normativa ou verdade empírica, enquanto tivermos clareza que um novo argumento pode transformar ou até negar a nossa própria pretensão de verdade. Logo, os partidos políticos são as instituições que representam diversas concepções sociais do que “é certo para todos”. Exatamente nisso reside a ideia de partido político. Neste sentido, os partidos devem ser entendidos como espaços funcionais que organizam o debate em torno das diferentes interpretações do interesse comum. Ser “partido” significa participar do processo de formação da vontade (e opinião) entre os cidadãos e reivindicar a possibilidade de exercer influência direta na sociedade. Esta característica única dos partidos políticos não está em contradição com o livre exercício do mandato consagrado na Constituição. A boa representação está estreitamente ligada ao controle dos eleitores, mas, a partir de certo ponto, também tem a ver com a confiança na competência decisória objetiva dos representantes. É precisamente dessa característica específica da função legis- lativa geral que resulta a obrigação especial dos partidos de não se enxergarem apenas como representantes de interesses, mas também como protagonistas de diferentes concepções do interesse comum ou bem comum. Além de conhecer os diferentes interesses existentes na sociedade, os partidos têm a tarefa de defender pro- postas generalizáveis. Só se forem permeáveis a interesses distintos, eles serão capazes de desenvolver respostas legislativas que tentam atender todos os envolvidos. Simultaneamente, os partidos devem sempre dar conta do dever de verificar e corrigir a sua interpretação do bem comum condicionada pela sua base socioeconômica. Este processo de questionamento contínuo poderá ser promovido pela concorrência com outros partidos, cujas propostas estão mais pró- ximas dos interesses de outros grupos socioeconômicos. 118 Peter Siller