ano (2,8% do PIB mundial), têm impacto social e econômico equi-
valente às consequências do tabagismo ou dos conflitos armados.
A escalada não respeita mais fronteiras de exceção geográfica,
social ou etária. A obesidade se globalizou. E também a mundiali-
zação de dietas empobrecedoras, de elevado teor de gordura, açú-
car e sal pode não apenas conviver como mascarar a fome e a má
nutrição: mais da metade dos indivíduos obesos vivem em nações
em desenvolvimento.
A segurança alimentar, herdada do século 20, não está capa-
citada para lidar com uma mutação em que o abastecimento ao
mesmo tempo sacia e adoece o corpo, magnifica a produtividade
e dissemina fome, depende e desguarnece o equilíbrio ambiental.
As discrepâncias evidenciam a singularidade do desconhecido
que está esmurrando a porta: não basta mais insistir na expansão
da oferta, ainda que seja importante fomentá-la no núcleo duro da
fome hoje alojado entre os cerca de 500 milhões de agricultores
familiares do planeta.
A conclusão incontornável é de que é necessário reposicio-
nar nossos sistemas alimentares, que ora visam apenas fornecer
comida, para sistemas de nutrição abrangentes, que sejam ao
mesmo tempo socialmente convergentes e imperativamente saudá-
veis para o metabolismo humano e o do planeta.
Os revezes nos balanços das corporações alimentícias deixam
pouco espaço ao ceticismo da inércia.
Mudanças e oportunidades em curso convocam a ampla revisão
do pacto alimentar sedimentado no pós-guerra, quando o saldo de
cinquenta milhões de cadáveres produziu um irrefreável desejo de
paz, logo traduzido na aspiração por instituições capazes de condu-
zir a humanidade a um abrigo a salvo da desordem e da escassez
que se seguiu à Grande Depressão de 1929, quando os mercados
desregulados reduziram a economia mundial a uma montanha
desordenada de ruínas.
A produtividade capaz de erradicar a fome ergueu-se aí como
uma viga-mestra da reconstrução, alcançando sucessos expressi-
vos graças às sementes melhoradas, à mecanização e ao pacote
químico da Revolução Verde dos anos 1960/1970.
Temos o privilégio de aprender com o passado e projetar
o futuro. Este apanágio humano deve antecipar respostas às
A travessia alimentar
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