Pedras e Demônios pd53 | Page 113

ano (2,8% do PIB mundial), têm impacto social e econômico equi- valente às consequências do tabagismo ou dos conflitos armados. A escalada não respeita mais fronteiras de exceção geográfica, social ou etária. A obesidade se globalizou. E também a mundiali- zação de dietas empobrecedoras, de elevado teor de gordura, açú- car e sal pode não apenas conviver como mascarar a fome e a má nutrição: mais da metade dos indivíduos obesos vivem em nações em desenvolvimento. A segurança alimentar, herdada do século 20, não está capa- citada para lidar com uma mutação em que o abastecimento ao mesmo tempo sacia e adoece o corpo, magnifica a produtividade e dissemina fome, depende e desguarnece o equilíbrio ambiental. As discrepâncias evidenciam a singularidade do desconhecido que está esmurrando a porta: não basta mais insistir na expansão da oferta, ainda que seja importante fomentá-la no núcleo duro da fome hoje alojado entre os cerca de 500 milhões de agricultores familiares do planeta. A conclusão incontornável é de que é necessário reposicio- nar nossos sistemas alimentares, que ora visam apenas fornecer comida, para sistemas de nutrição abrangentes, que sejam ao mesmo tempo socialmente convergentes e imperativamente saudá- veis para o metabolismo humano e o do planeta. Os revezes nos balanços das corporações alimentícias deixam pouco espaço ao ceticismo da inércia. Mudanças e oportunidades em curso convocam a ampla revisão do pacto alimentar sedimentado no pós-guerra, quando o saldo de cinquenta milhões de cadáveres produziu um irrefreável desejo de paz, logo traduzido na aspiração por instituições capazes de condu- zir a humanidade a um abrigo a salvo da desordem e da escassez que se seguiu à Grande Depressão de 1929, quando os mercados desregulados reduziram a economia mundial a uma montanha desordenada de ruínas. A produtividade capaz de erradicar a fome ergueu-se aí como uma viga-mestra da reconstrução, alcançando sucessos expressi- vos graças às sementes melhoradas, à mecanização e ao pacote químico da Revolução Verde dos anos 1960/1970. Temos o privilégio de aprender com o passado e projetar o futuro. Este apanágio humano deve antecipar respostas às A travessia alimentar 111