Pedras e Demônios pd53 | Page 112

A travessia alimentar José Graziano da Silva O advento da Agenda 2030 das Nações Unidas marcou o empenho coletivo em construir os grandes consensos que norteiam os padrões do desenvolvimento, que necessita ser social, ambiental e economicamente sustentável. Para a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agri- cultura (FAO), um dos pilares fundamentais da sustentabilidade é entender a segurança alimentar não mais como um atributo da oferta de alimentos, mas da qualidade do que se consome e do como se produz, atendendo a interações cada vez mais imperativas entre dieta humana, saúde pública e responsabilidade compartilhada pelos recursos naturais que formam as bases da vida na Terra. Existe nessa equação um século 21 ainda não inteiramente visí- vel, mas cada vez menos oculto, como mostram os sinais que o mercado não cessa de emitir. Mudanças na preferência do consumidor têm disparado aler- tas recorrentes nos balanços das grandes companhias globais de alimentos industrializados, como tem sido divulgado por diversos periódicos nacionais e internacionais. Significativa perda de apelo de marketing e retornos declinantes sinaliza o crepúsculo de um padrão de dietas saturadas de açúcar e gordura, cuja revisão requer forte investimento no novo paradigma em curso – “aquilo que não é saudável não é alimento.” Agricultores de todo o mundo estão às voltas com o desafio de atender a demanda crescente por gorduras consideradas saudá- veis, o que elevou os preços médios do abacate, da manteiga, do azeite de oliva e do salmão em quase 60% nos últimos cinco anos. Tal demanda apoia-se, sobretudo, no conhecimento crescente dos malefícios de dietas insalubres. A espiral do sobrepeso já afeta mais de 2 bilhões de indivíduos no planeta, entre eles cerca de 670 milhões de obesos. Um terço da população mundial enfrenta doenças decorrentes de desequilíbrios alimentares que se tornaram a principal fonte de gasto dos sistemas de saúde: custam cerca de US$ 2 trilhões ao 110 José Graziano da Silva