A travessia alimentar
José Graziano da Silva
O
advento da Agenda 2030 das Nações Unidas marcou o
empenho coletivo em construir os grandes consensos que
norteiam os padrões do desenvolvimento, que necessita ser
social, ambiental e economicamente sustentável.
Para a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agri-
cultura (FAO), um dos pilares fundamentais da sustentabilidade
é entender a segurança alimentar não mais como um atributo da
oferta de alimentos, mas da qualidade do que se consome e do como
se produz, atendendo a interações cada vez mais imperativas entre
dieta humana, saúde pública e responsabilidade compartilhada
pelos recursos naturais que formam as bases da vida na Terra.
Existe nessa equação um século 21 ainda não inteiramente visí-
vel, mas cada vez menos oculto, como mostram os sinais que o
mercado não cessa de emitir.
Mudanças na preferência do consumidor têm disparado aler-
tas recorrentes nos balanços das grandes companhias globais de
alimentos industrializados, como tem sido divulgado por diversos
periódicos nacionais e internacionais. Significativa perda de apelo
de marketing e retornos declinantes sinaliza o crepúsculo de um
padrão de dietas saturadas de açúcar e gordura, cuja revisão requer
forte investimento no novo paradigma em curso – “aquilo que não é
saudável não é alimento.”
Agricultores de todo o mundo estão às voltas com o desafio de
atender a demanda crescente por gorduras consideradas saudá-
veis, o que elevou os preços médios do abacate, da manteiga, do
azeite de oliva e do salmão em quase 60% nos últimos cinco anos.
Tal demanda apoia-se, sobretudo, no conhecimento crescente
dos malefícios de dietas insalubres. A espiral do sobrepeso já afeta
mais de 2 bilhões de indivíduos no planeta, entre eles cerca de 670
milhões de obesos.
Um terço da população mundial enfrenta doenças decorrentes
de desequilíbrios alimentares que se tornaram a principal fonte de
gasto dos sistemas de saúde: custam cerca de US$ 2 trilhões ao
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José Graziano da Silva