Pedras e Demônios pd53 | Page 110

A fim de contribuir para a busca de medidas adaptativas, desde 2016 o Laboratório de Sustentabilidade aplicada à Arquitetura e Urbanismo (LaSUS) utiliza o sensoriamento remoto para examinar a formação de Ilha de Calor Urbano (ICU) em Brasília, por meio de análise quantitativa com gráficos de temperatura da superfície urbana e correlação qualitativa com as atividades humanas e uso do solo. É relevante estimar o potencial de estratégias de adaptação das ilhas de calor encontradas devido à diversidade de microcli- mas urbanos que coexistem e à diversidade morfológica da cidade. Cada cidade das regiões administrativas apresenta características morfológicas únicas e valores de temperatura altos, ausência de vegetação, excesso de solo exposto, materiais impermeáveis, enfim, todos os ingredientes para a formação da ICU. Sabemos hoje que tipos de ocupação, como a dos condomínios horizontais, tem influências diretas nas ilhas de calor, pois ao ocu- par toda a área de parcelamento disponível diminuem significati- vamente as áreas de desenvolvimento da ventilação e de infiltração das águas de chuva. Revelam-se eticamente condenáveis as políti- cas habitacionais que aprovam, implícita ou explicitamente, bair- ros homogêneos, compostos unicamente de condomínios fechados, quintessência da antiurbanidade. O lugar de Brasília foi escolhido, desde o final do século 19, principalmente por suas condições climáticas, e o Plano Piloto desenvolvido pelo urbanista Lucio Costa possui características bio- climáticas que são verdadeiras lições sobre planejamento urbano resiliente ao calor extremo. Porém, o crescimento desordenado tem alterado sensivelmente o clima do DF nos últimos anos: verões mais quentes e invernos mais secos; sofremos com chuva extrema e com ondas de calor. Os trabalhos realizados em nosso Laboratório sobre os padrões de desempenho ambiental confirmam a perda de conforto na capi- tal, devido, fundamentalmente, ao abandono de práticas susten- táveis. As superquadras de ocupação mais recente, quando com- paradas com as mais antigas, não apresentam a mesma leitura espacial: a proporção espacial entre vazios e cheios é menor nas mais recentes, cujos terrenos também perderam em termos de con- tinuidade e legibilidade. As soluções rebuscadas utilizadas nos térreos são trasladadas para o espaço público, que fica balizado por pequenos artifícios que interrompem os passeios e dificultam a identidade do espaço. Em Brasília, os setores centrais diferem em materiais, formas e tempe- 108 Marta Romero