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A figura do namorado dos meus treze anos desapareceu ao mesmo tempo.
Comunicação interrompida. Morreu o amor.
E durante algum tempo, para mim por muito tempo, a minha atitude em relação aos rapazes passou a ser desconfiada, dura e ácida.
Quanto a fidelidade, já percebi que não existe. A confiança já não tem o mesmo sentido.
Durante algum tempo vou errar em busca de outras confianças, de outros venenos. Embebedo-me de música e de álcool, de
festas inúteis e de tabaco. Até à exaustão. Gaivota envenenada. Poluída.
18 Gaivota de Cabeça Vazia
Naquela noite, de madrugada regressei a casa do meu pai; é a sua vez de me ter durante o fim-de-semana.
Ainda ontem eu tinha a impressão de ser feliz. Dançava, ria, brincava. Adiava o mais possível o momento de ir para casa.
Nada de rapazes na minha vida, nada de amores para nos divertirmos. Saio com as minhas amigas, a fim de evitar as armadilhas da mentira.
Ontem o meu pai disse-me como habitualmente: " Cuidado, tem cautela. Não venhas muito tarde, precisas de dormir." E eu em silêncio: " Vai falando..."
Mas qualquer coisa se passou naquela noite. Não consigo lembrar-me. Com o álcool, tudo balançava à minha volta, já não sabia onde me encontrava. Desta vez exagerei.
Estou abatida ao acordar. Aliás, desde há algum tempo que me sinto muito abatida. Quando me olho ao espelho vejo que estou olheirenta, de pele acinzentada, com um aspecto horrível.
E digo a mim mesma: " Mas que trombas são estas? Minha filha, pára de beber, tens a cabeça vazia, foste à festa, bebeste, e agora olha para a tua linda figura! "