O voo da Gaivota 1 | Page 98

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" Ficas comigo ou corto as veias."
Ele quer que eu fique com a SUA morte na minha consciência. Nem raciocino. Repito:
" Acabou-se!".
E ele cumpre a ameaça! Sem pestanejar, abre uma veia à minha frente!
Horrorizada, desato a fugir. Tanta violência, tanto sangue, vai morrer! E a culpa é minha. Vai morrer pela certa!
Em casa de uns amigos onde me refugio, soluço por ele e por mim. Já me via acusada, perante a polícia, no tribunal,
condenada a nem sei o quê, pelo menos ao eterno remorso. Não vou conseguir viver com aqueles remorsos na consciência.
Porque julguei que ele tinha morrido, tinha visto o sangue a saltar da veia com os meus próprios olhos. E eu tinha fugido, tinha-o deixado lá! Continuo a acreditar naquilo que vejo.
Pobre gaivota ingénua. O assunto resolveu-se com um penso feito no hospital. Ou então ele não sabia que suicidar-se daquela maneira não resultava assim tão facilmente. Nem eu.
A minha mãe consolou-me, serenou-me, desculpabilizou-me. Mesmo que tivesse acontecido o pior, a culpa não era minha. Ele é que era um mentiroso. Quem estava a fazer chantagem emocional exercendo violência sobre si mesmo, era ele.
Não eu. Não se pode ser culpado e vítima. Cada um é responsável por si mesmo.
Por muito estranho que pareça, o verdadeiro amor que eu sentia por aquele rapaz desapareceu definitivamente no dia em que os meus pais se separaram.
Quando o meu pai saiu de casa, a relação que eu tinha com aquele rapaz que eu amava extinguiu-se.
A figura do meu pai, o homem símbolo da minha infância, desapareceu para longe de mim após o divórcio.
A comunicação foi provisoriamente interrompida. O amor adormeceu.