O voo da Gaivota 1 | Page 97

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Fujo, com a cabeça e o coração desordenados, deixando o grupo a divertir-se, ignorando o que se passa. Corro, corro para o mais longe possível da minha casa. Já nem sei onde estou.
Debaixo da entrada de um prédio desconhecido. Para chorar. Por muito tempo. Até de madrugada sozinha.
Após a tempestade de lágrimas que me sacudiu recupero a serenidade. Volto para casa, andando calmamente ao longo dos passeios. O mar está calmo, a gaivota regressa ao porto, em silêncio.
Ele está lá à minha espera, louco de aflição com o meu desaparecimento, lamentável, culpado. Quer pedir desculpa, apagar tudo, beijar-me.
Mas acabou. Já não o amo. Tê-lo-ei realmente amado a ELE, ou àquele que eu imaginava que ele era? O que é afinal a fidelidade? O que é afinal a confiança?
Tenho só dezassete anos. Há muito que o amo, a ELE. Comecei cedo. Quero assumir a derrota, o punhal no coração, mas não quero ficar por aí. Já que ele quer brincar às vítimas, tentar fazer-se perdoar do que me quer fazer crer não ter sido mais do que uma loucura passageira, vou esperar pacientemente a oportunidade de o fazer sentir, a ELE, o sabor envenenado da traição. Não o deixo logo. Quero que ele apanhe a mesma punhalada no coração.
O ódio deve fazer parte do amor. Ao desejar esta vingança, é o fim da história que eu pretendo. A minha própria história, não unicamente a sua. Com a minha infidelidade, com a minha mentira, com a minha traição. Quero oferecer-lhe um presente, um presente de despedida.
Pouco tempo depois surge essa oportunidade. E foi só " depois," que lhe peço que me oiça dizer cara a cara:
" Pronto. Acabou. Já não te amo."
Aquele jogo de perversa tortura e de mentira incomodava-me certamente muito mais a mim do que a ele. Nem sequer sei se ele compreendeu, se chegou a aperceber-se de alguma coisa.
Nega-se a acreditar que já não o ame. Obriga-me a repetir. Quer que eu o fite nos olhos.
E eu fria e determinada, disposta a não permitir que aquele momento difícil se eternize. Ele tira da algibeira uma lâmina de barba para me submeter à habitual chantagem: