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tudo estava colado naquela atracção. Ele procurava o amor com tanta sede como eu. E bebíamo-lo juntos.
Há festa lá em casa. Adoro festas. Música a fundo, os ouvidos colados aos altifalantes, mostram-se as capas dos discos
para anunciar se é um rock ou um slow. Dançar, descontrair,
sentir o ritmo nos pés, no corpo, deixar-se ir com as pulsões físicas que tudo aquilo provoca. Dançar com ELE.
" Disseram-me que andas a sair com outra...", " Que ideia! Tu és a única, só tu existes. És o meu único amor."
Apercebo-me no entanto de um certo retraimento, que enquanto fala por gestos está na defensiva, com o corpo retraído e o gesto um pouco hesitante. A resposta foi longa, como se ele a tivesse estudado antecipadamente: " O que é que eu lhe vou dizer?"
Um amante surdo é tão fácil de apanhar como um que oiça, presumo. Aquilo que se adivinha na entoação da voz, na hesitação do texto, adivinha-se nos gestos, na posição do corpo, no olhar.
Eu não tenho jeito para mentiras. Já experimentei com os meus pais e não resulta. A gaivota é demasiado sincera.
Demasiado ingénua, também. Acredito nele há já muito tempo, vai ser preciso eu ver a mentira com os meus próprios olhos para ficar convencida.
Há uma hora que não sei onde ele se meteu. Já dei a volta à casa; só falta a casa de banho. É onde ele está e creio que não está sozinho.
Espreito por uma trapeira que há no meu quarto. Dali posso ver tudo, como uma gaivota no topo do mastro de um veleiro.
Desta vez está tudo esclarecido. Bato à porta com violência.
Ele abre-a sorridente, tentando esconder a outra. Tentando ainda fazer-me crer que é de mim que gosta. Não suporto aquilo.
Encaro sempre a realidade. Não me escondo atrás de ninguém.
Sinto o ódio a subir, a dor a perfurar-me o coração, a garganta apertada. Há momentos em que apetece sonorizar os gestos para poder gritar tudo aquilo.