O voo da Gaivota 1 | Page 95

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experiência em Espanha com os meus pais. No fim do mês estava angustiada, com a sensação de sufocar. Tinha atingido o último
limite. Vários meses sem surdos, sozinha no meio dos que ouvem, é inimaginável. Interrogo-me se conseguiria aguentar. Voltaria a gritar como uma gaivota? Ficaria nervosa? Teria que lhes suplicar que me olhassem, que não se esquecessem de mim?
Reencontrar o mundo dos surdos é um verdadeiro alívio.
Deixar de fazer esforços. Não precisar de me estafar na tentativa de falar oralmente. Reencontrar as mãos, o à-vontade, os gestos que voam, que falam sem esforço, sem constrangimento.
Os movimentos do corpo, a expressão dos olhos, que falam. De súbito desaparecem as frustrações.
Contacto de veludo.
17 Amor Veneno
Bem me tinham avisado. O meu pai tinha-me dito: Deixa-o. É um vadio, vai fazer-te mal." Os meus amigos preveniram-me: É um instável." A minha mãe disse-me: É um violento." E eu tinha dito a mim mesma:
" Não o compreendem. É um marginal porque teve problemas na infância, talvez goste de andar atrás de raparigas,
mas é de mim que gosta. É violento mas hei-de acalmá-lo."
Tinham-me dito muitas coisas acerca DELE. E eu arrumei-as na minha cabeça, embrulhadas na confiança absoluta que depositava NELE. Total. Uma fé cega. E quando confio em alguém a este ponto é bom que me tomem a sério.
E sobretudo estava apaixonada, atraída como que por um íman. Já nem pensava, a minha imaginação, o meu raciocínio,