O voo da Gaivota 1 | Page 94

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grupos numerosos, irrita-me. Acredito firmemente na possibilidade do diálogo entre os dois mundos, as duas culturas. Vivo com pessoas que ouvem, comunico com elas, vivo com surdos e ainda comunico melhor, é natural. Mas o esforço que é necessário fazer para se conseguir essa comunicação, somos sempre nós que o fazemos. Pelo menos é essa a minha impressão pessoal. Procuro ainda, obstinadamente, a união nessas relações. Gostaria de ver desaparecer a desconfiança. Mas não consigo.
Essa confiança existe entre mim e a minha mãe, entre mim e a minha irmã, com mais algumas pessoas que ouvem, não quero generalizar. Mas, sem ser derrotista, talvez o ideal que eu procuro seja impossível de alcançar. É tudo uma questão de personalidade, de educação, de informação.
Já não tenho aquelas fúrias dos meus dezasseis anos. Pelo contrário. Muitas vezes converso com surdos acerca deste assunto, que entre nós é frequentemente um tema favorito. Alguns são absolutamente extremistas, do género " queremos a terra prometida, uma terra de surdos, nunca conseguiremos conviver com aqueles que ouvem!", Essas pessoas fecham-se ao mundo.
Compreendo a sua reacção, mas aconselho-as sempre a pôr um freio nas reivindicações desse género, que reflictam, que se abram aos outros. Recuso o extremismo em ambos os sentidos.
Mas talvez eu tenha tido mais sorte do que outros nas minhas relações sociais.
É frequente isolar-me no meu mundo. Não posso estar sempre a interpelar as pessoas, por isso excluo-me voluntariamente, e sonho. Por vezes esquecem-me um pouco, mas não têm culpa. Se estou a pensar numa situação que me revolta, nas pessoas que não se esforçam, pergunto a mim mesma: " Seria capaz de me integrar com os outros assim, diariamente? Seria capaz de viver sem os surdos?" Tenho necessidade dos surdos. E também tenho necessidade daqueles que ouvem- que de toda a maneira não poderia riscar do mapa.
Passo dum mundo para o outro. Ficar um mês inteiro na companhia dos que ouvem é difícil.
O esforço é permanente. Uma pessoa pensa até onde conseguirá aguentar. A diferença está ali, inevitável. Tem-se realmente necessidade de estar com outros surdos. Tive uma vez essa