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Não me quis ouvir. Mais uma pessoa que ouve e que recusa escutar.
Eu teria querido explicar-lhe ao menos que estamos ali porque nos sentimos todo o dia frustrados neste mundo que não é o nosso. Que precisamos de nos reunir. Que no rés-do-chão a sala está vazia, não estamos pois a tirar o lugar a ninguém. Que pedimos desculpa. E se for preciso tomar mais uma coca-cola ou um hamburger, que mandamos vir. Podíamos encontrar uma forma de entendimento, podíamos conversar. Mas aquele tipo recusa-se a ouvir, recusa-se a compreender-nos.
Um colega faz um sinal: " Deixa, vamo-nos embora."
Já estamos habituados a que nos ponham na rua. Como outros grupos de jovens. Mudamos de local constantemente, à procura de um sítio, um refúgio, mas em geral põem-nos gentilmente na rua; é a primeira vez que o fazem de forma tão grosseira. Somos seres humanos e aquele homem fala-nos como se fôssemos cães; estou certa de que seria mais atencioso com trinta cães da Sociedade Protectora dos Animais.
Posso compreender o problema dele: um grupo de gente nova no seu McDonald ' s incomoda-o, altera os seus hábitos e ele não está ali para isso. Mas não deve falar-nos naquele tom!
Não com aquele desprezo. Mesmo não sabendo como falar comigo, não foi esse o verdadeiro problema, pode-se sempre tentar.
Olho para ele, realmente furiosa. Uma gaivota zangada. Ele baixa de tom.
" Bom, está bem, mas não se demorem muito."
Por fim, fomo-nos embora enojados. De volta a casa, digo à minha mãe:
" É isto a comunicação com gente que ouve? Não posso aceitar.,"
Ela tenta acalmar-me, mas eu estava furiosa. A minha fúria serve para mascarar o meu sofrimento. Dizia para comigo:
Tudo isto é repugnante, não se consegue modificar o mundo com um estalido dos dedos.,"
Isto pode parecer uma anedota, mas aquele conflito, que acontece amiúde entre surdos e quem ouve, sobretudo quando estamos em