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agitado. Com um atraso escolar capaz de me estragar o futuro. Futuro para o qual de momento me estou marimbando com determinação.
Sexta-feira, reunião no McDonald ' s. O meu grupo junta-se no primeiro andar do estabelecimento. Vamos para lá conversar horas a fio, como se estivéssemos numa sala e é mais confortável do que no metro. De qualquer forma, não sabemos para onde ir. Aquilo pode durar das seis às nove da noite. Compra-se um hamburger, uma coca-cola ou um café, e ali ficamos. " Bloqueamos ", como dizem os adolescentes.
O gerente não gosta lá muito. Não creio que para ele seja um problema a ocupação das mesas, à nossa volta há muitos lugares livres, entre as seis e as nove não costuma haver muita gente. Mas acho que aquele gerente não aprecia que o nosso grupo de surdos tenha escolhido o seu McDonald ' s para se reunir.
Um empregado chega ao pé de nós e diz-nos para sairmos. Nós recusamos. Ele vai-se embora e volta e a cena continua. Uma noite o gerente mete-se no assunto. Está francamente furioso. " Vão-se embora! Desandem! Ponham-se a andar!"
Um colega surdo, sentado à minha frente, explica-lhe por gestos que tem o direito de ficar, visto estar a fazer despesa.
O gerente não quer saber.
" Não fiques aqui! Caia fora agora mesmo! Tens dois segundos para te mexer e sair! "
Fala-lhe como a um cão. Não suporto aquilo. Intervenho falando francês:
" Fazes favor? Podemos conversar? Não somos cães, somos seres humanos ".
Terá compreendido? Não sei. A minha " pronúncia " oral por vezes é difícil, sobretudo se estiver zangada, o que era o caso.
De qualquer forma, deve ter entendido o tom, mas recusa-se a conversar.
" Nem pensar! Andando!"
Sinto que a briga vai começar. Os meus nervos ficam tensos. Apetece-me bater-lhe.