O voo da Gaivota 1 | Page 91

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imaginando o pior, receando que me obrigassem a escolher entre um e outro. Entre dois amores. Mas não foi o caso. Quando os meus pais se divorciaram eu tanto ia para casa de um como para casa do outro, às quartas-feiras ou ao fim-de-semana.
Ao sábado à noite dizia à minha mãe: " Previno-te que volto tarde, vou à boite."
Num outro sábado à noite dizia a mesma coisa ao meu pai.
A única diferença era que ele dormia profundamente e não me ouvia entrar. O meu pai dorme muito bem.
Sentia-me impotente, mesmo assim, para reatar todos os fios da minha infância. Convenci-me de que era eu a razão daquele divórcio, que a causa era a minha indisciplina, o meu comportamento demasiado livre. Talvez até o facto de eu ter nascido surda.
Na realidade, eu não sabia nada acerca dos motivos que os levavam a divorciar-se. Era assunto deles. A minha mãe apressou-se a sossegar-me no que respeitava ao meu sentimento de culpa; eu podia conservar os meus dois amores intactos, ninguém era culpado, nem eu. Para mim foi importante saber isso,
pois o afecto sempre fez parte integrante dos meus entusiasmos e das minhas revoltas.
Na minha vida, creio que poderia ter aceitado tudo, como acabei por aceitar aquele divórcio, se todas as imposições fossem feitas com o coração.
Os pedagogos no ensino oralista não souberam. O meu primeiro amor também não.
O divórcio dos meus pais foi uma ferida que ainda não cicatrizou. Aceitei o ferimento. A cura é lenta. Não devo ser a única com este problema, os filhos de pais divorciados andam assim numa roda-viva de fim-de-semana em fim-de-semana.
Durante este tempo agarro-me ao meu amor, àquela paixão tumultuosa e exclusiva. Depositei nele toda a minha confiança.
É importante, a minha confiança. Até que cheguei à conclusão de que me tinha enganado. Mas aos dezasseis anos, e uma vez que decidi fazer o relato da minha vida por ordem cronológica, ainda lá não chegámos. Continuo, pois, presa naquela rede de um amor