O voo da Gaivota 1 | Page 90

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que traduza uma conversa, a necessidade de pedir a alguém quetelefone, a impossibilidade de contactar directamente com o médico, precisar de legendas na televisão, tão raras em França.
Com mais um pouco de Minitel, mais algumas legendas, eu, nós, os surdos, poderíamos mais facilmente ter acesso à cultura.
Não haveria mais deficiências, mais bloqueios, mais fronteiras entre nós.
Aliás, a minha revolta mudou. Aos treze anos recusava ser dependente dos meus pais, não queria ter que lhes dar satisfações dos meus actos. Quando se é surdo, fica-se mais dependente dos outros do que aqueles que ouvem. Não queria que isso continuasse. E sobretudo não queria ter que continuar a suportar o ensino oralista. A pedagogia imposta estava a tornar-se num autêntico sofrimento. Estava a destruir a minha vida.
Aos dezasseis anos, modificou-se. Tinha evoluído e estava perturbada. A relação com o meu pai tinha desaparecido quase por
completo, limitando-se ao que ele me dizia a avisar-me:
" Andas a sair de mais, já não fazes nada, as tuas companhias são perigosas, estás a desperdiçar o teu futuro. Pára!"
E o diálogo ficava por aqui. Quanto à minha mãe, sentia quanto ela andava inquieta,
uma inquietação permanente e silenciosa. Tentava compreender os meus disparates, ralhando comigo o menos possível, mas andava francamente preocupada. Durante aquele período Maria tornou-se uma aluna brilhante na escola, sempre em primeiro lugar. Muito dotada, por vezes quase que me ultrapassava.
Continuávamos sempre cúmplices, irmãs amigas, nunca inimigas, à parte pequenas discussões sem importância, que nunca
duravam muito. E felizmente o diálogo com ela nunca teve interrupções.
O que mais me inquietava era ouvir os meus pais falar cada vez mais em divórcio. No dia em que tomei consciência de que eles iam realmente separar-se, aceitei, aparentemente, aquele facto consumado. Como naqueles momentos da nossa existência em que há uma urgência absoluta a sobrepor-se a tudo o resto. Tentei pois " normalizar " o meu sofrimento. Mas sentia uma dor profunda,