O voo da Gaivota 1 | Page 89

89
Nunca poderia tolerar que aquele tipo me tocasse. Tive medo que isso acontecesse. Teria partido para a pancadaria se fosse preciso. Aos dezesseis anos tinha aulas de boxe francês, não para me defender, mas porque era bonito, artístico e por gostar.
Sabia perfeitamente onde é que uma joelhada pode magoar um homem. Se agora me acontecesse alguma coisa no género saberia ainda como lhe enterrar os dedos nos olhos ou dar-lhe com o joelho no sítio certo. Se me tocam torno-me agressiva e violenta. Felizmente isso nunca me aconteceu.
A minha mãe comprou-me um spray de gás lacrimogênio para eu usar em caso de agressão. Mas aquela história não me impediu de voltar para casa tarde, nem de continuar a ir a boates.
Algumas semanas mais tarde, ao subir num elevador, um homem aproximou-se de mim. Reagi de imediato:
" Não me toque, não me toque!"
E saí logo. Talvez ele quisesse unicamente perguntar as horas, mas eu tinha ficado tão traumatizada com o encontro precedente que preferi fugir.
Naquela idade não havia muita coisa que me metesse medo.
No entanto, é compreensível que naquele momento eu tivesse ficado enervada perante uma cena tão brutal. Outras raparigas, que ouvem, conheceram agressões idênticas. No fundo, não creio que aquele género de agressão seja particularmente dirigido a um surdo, como eu. Aliás corria riscos idênticos àqueles que corre qualquer rapariga que oiça, se for tão revoltada, determinada e voluntariosa como eu. Em todo o caso, não queria ser considerada como alguém a quem é preciso proteger a todo o custo.
Naquele tempo, em plena crise de identidade, ignorava totalmente o perigo, até ao momento em que era confrontada com ele. Sou demasiado absoluta para não tentar sempre ultrapassar-me a mim mesma, assumindo as consequências das minhas atitudes. Sou um ser humano normal, com uma identidade. Como diz a minha mãe:
" A Emmanuelle recusa ser considerada uma deficiente." É exacto. Para mim, a língua gestual corresponde à voz, os
meus olhos são os meus ouvidos. Sinceramente, não me falta nada. É a sociedade que me torna deficiente, que me torna dependente daqueles que ouvem: a necessidade de pedir a alguém